O cara do drift no Rio Grande do Sul

Para Matheus Sartor, que dominou as últimas edições de campeonatos de Drift no Brasil, campeão brasileiro, ‘Velozes e Furiosos’ não é ficção  

Das últimas batalhas no metiê do drift, ele se consagrou campeão. No esporte, ele é o Sartor, um jovem piloto que nas suas voltas do quali deixa de lado a timidez e, com técnica e ousadia, encanta seu séquito de fãs. Na sua rede social, @sartormatheus, seus 120 mil seguidores acompanham sua trajetória que ganhou impulso em 2017, com um Chevette vermelho adquirido ‘de uma senhorinha muito cuidadosa de Lajeado’, como ele mesmo comenta.

Mas, quem já viu manobras de drift ao vivo? Poucos. Conhecemos de filmes, como Velozes e Furiosos. Bem, se dependermos deste gaúcho campeão, estaremos cada vez mais perto da modalidade por aqui. Mas, fácil não é chegar ao pódio, a paixão deve ser uma constante e a dedicação, encarada com seriedade, custos – é claro, e, talento. O tempo de Matheus é fracionado entre sua paixão e seu trabalho frente à sua empresa Usatex, no Vale dos Sinos. No que tange ao afeto pelo drift, compartilha seus instantes entre os campeonatos e a motivação que estende a quem curte ou está iniciando nas técnicas precisas de derrapagem nas curvas, no Velopark.

O Sartor que vem fazendo a alegria de apaixonados por carro e que vibram com as manobras de derrapagens nas curvas, frita pelo menos oito pneus durante as apresentações para garantir a adrelina. Porém, a sua motivação já ganhou impulso no seu primeiro ano no esporte, passando a contar com patrocínio de grandes marcas do segmento, logo após consagrar um segundo lugar ainda com o Chevettinho (nunca antes alguém havia conquistado um 2º lugar com Chevette), um carro inferior na modalidade, mas mais acessível aos iniciantes.

Hoje, Matheus corre com uma BMW de mais de 500 cavalos, carro bem superior ao Chevettinho com o qual iniciou. Para o novo ano ele já nos revelou que uma BMW M2 o aguarda.

Só de acompanhar alguns campeonatos seus, dá um friozinho na barriga nas curvas mais fortes. Gente que Faz o escutou para saber mais do campeão.  

Matheus, onde nasceu o drift?

Nasceu no Japão, como uma técnica de velocidade em curvas apertadas, muito utilizada nas corridas em montanhas. Porém, logo os pilotos começaram a aperfeiçoar as técnicas de dirigir com o carro de lado e então surgiu uma categoria especifica de Drift, nos anos 70.

 E no Brasil?

Aqui começou por volta de 2006, com a importação de alguns carros japoneses, que deram início oficial à categoria, com campeonatos regionais e, em seguida, campeonato brasileiro.  Como temos dificuldades, no Brasil, com o acesso a peças importadas e investimentos, o esporte teve algumas barreiras de acesso para que todas pessoas  interessadas conseguissem entrar. Porém, hoje, com o constante desenvolvimento de peças nacionais e incentivo de grandes empresas, começou a se popularizar tendo um grande número de novos pilotos.

Como nasceu a tua paixão pelo drift e como se deu o teu início no esporte?

Surgiu através de vídeos na internet … acabei percebendo que aquelas manobras dos filmes Velozes e Furiosos não eram apenas mera ficção e, sim,  realmente técnicas que existiam e eram praticadas. Logo em seguida fui atrás de um simulador para começar a praticar e, então, veio o Chevettinho que comecei a preparar. Após 2 anos,  fiz minha primeira aula de drift em um carro real e em 2017 comecei a prática com meu Chevette vermelho,  que encontrei na cidade de Lajeado, de uma senhora que o tinha guardado há mais de 20 anos. Mal sabia ela as fortes emoções que este Chevettinho iria enfrentar.

 Sabemos que o drift é um esporte caro que demanda tempo, talento e custos. Como você concilia vida profissional com a vida de piloto?

Desde que iniciei no esporte já sabia dos obstáculos que teria… precisaria administrar paixão e trabalho  com fúria e velocidade. Meus pais sempre me motivaram na minha paixão, aos seis anos eu já estava matriculado nas aulas de kart, o que também foi decisivo para a minha paixão por velocidade. Em 2019, fundamos a Usatex, empresa que atende toda região do Vale dos Sinos e diversos outros estados do Brasil, com soluções em tecidos para o mercado de calçados, vestuário e moveleiro. Entre a rotina corrida no mercado têxtil, em pelo menos 10 finais de semana do ano conciliamos etapas e eventos de drift, que muitas vezes acontecem a mais de 1.000km de distância. A rotina é puxada, mas aproveito cada momento.

A modalidade nasceu no Japão… já chegou a vivenciar o drift no seu berço de nascimento?

Sim, tive a oportunidade de viajar ao Japão por duas semanas para prática do esporte, onde consegui absorver bastante a cultura do drift na sua casa natal. Lá, a cultura do esporte é extremamente forte, assim como no Brasil temos o futebol com os amigos toda semana. No Japão o drift reina, com pistas construídas especificamente para a modalidade.  Tive a oportunidade também de visitar os Estados Unidos e acompanhar de perto toda preparação e competição na maior Campeonato de Drift no mundo, a Fórmula Drift.  Ambas experiências agregaram muito conhecimento, pude fazer uma análise comparativa de como ele se comporta hoje no nosso país e onde poderá chegar.

Como acontece o drift?

Um campeonato de drift é dividido em duas partes: qualificação e batalhas. Na qualificação o piloto anda sozinho e tem duas oportunidades para fazer a melhor volta que conseguir, sendo julgado por três juízes que analisam linha, ângulo e estilo.  O juiz de linha irá determinar o quão próximo o piloto passou de todas zonas demarcadas, o juiz de ângulo irá avaliar a quantidade de ângulo que o piloto conseguir manter em todas as curvas, sem ter grandes variações e por fim o juiz de estilo julgará o quão agressivo o piloto foi mantendo o máximo de aceleração e o quão fluido o piloto fez todo traçado sem cometer grandes correções.

Após as qualificações, são montadas as chaves de batalha, que compreendem duas voltas, cada uma com um piloto liderando. O piloto líder deve fazer sua melhor volta de qualificação enquanto o piloto perseguidor tenta se manter o mais colado possível. Para haver um ganhador declarado são necessários, no mínimo, dois votos favoráveis.

O drift pode crescer no Brasil? O que os iniciantes podem esperar?

Com certeza o drift vai crescer muito no Brasil e vem crescendo de forma expressiva nos últimos anos. Podemos ver diversas montadoras de automóveis colocando modo drift nos carros, jogos de corrida focando no drift, transmissão em rede nacional e um crescente número de adeptos a cada dia. Temos, como base, outros países como Estados Unidos, que já passaram pela fase que estamos hoje há cerca de 10 anos e hoje contam com a presença de grandes indústrias e até mesmo montadoras têm times de pilotos na competição profissional.

Quantos pilotos, em média, participam do campeonato brasileiro e de que forma ele é estruturado? Há algum estado em que o esporte é mais difundido? De que forma são feitas as divulgações e como pode-se acompanhar as competições?

No campeonato nacional temos cerca de 60 pilotos, sendo 20 da categoria de base e 40 na categoria PRO, na qual participo.  Sou o primeiro colocado do ranking brasileiro na categoria PRO e único representante gaúcho no campeonato. Temos um grande número de pilotos em Santa Catarina, Curitiba, São Paulo e região centro-oeste. As transmissões ao vivo acontecem na Band Sports e Youtube tendo sempre mais de 20 mil espectadores e mais de 1 milhão de vizualizações, números que impressionam.

Para aqueles que pretendem iniciar no esporte, o que você acredita ser primordial para ser um piloto de drift? Há a possibilidade da realização de cursos aqui no RS? Como é feito?

Para começar no esporte é primordial planejar o investimento em seu projeto, para então decidir o carro ideal para seu orçamento, assim como de quais eventos irá participar. Temos como mais acessível o nosso querido Chevette, que acaba trazendo algumas limitações competitivamente contra carros importados e tudo isso deve ser levado em consideração. Para começar, temos também a opção de fazer um curso prático de Drift, algo que fiz quando comecei e tive minha primeira experiência. Hoje, aqui no Rio Grande do Sul, ministro estes cursos onde ensinamos todos os passos para o aluno já conseguir fazer diversas manobras de drift mesmo em sua primeira aula.

Conteúdo publicado na edição 52 da revista Gente que Faz

Por Martin Augustin

 



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