Por Maria Manoela

Em cima da prancha, deslizando sobre o mar, Maria Manoela Pinheiro Machado vibra em outra frequência. É quando a surfista e a estilista se encontram: a conexão com a natureza deixa fluir a criação. Desses momentos de insight até chegar nos desenhos das roupas, ela passa do balanço das ondas ao balanço da bossa nova e da MPB. Ouvindo (e cantando) música transforma sentimentos em arte

Maria Manoela é um talento que vem conquistando seu espaço no mundo da moda. Há 15 anos no time criativo da Ton Âge – grife gaúcha fundada e liderada por sua mãe, a empresária e também estilista Laís Tascaroni – percebeu que estava na hora de imprimir a sua personalidade nas criações. Algo ousado e inovador para uma marca que está há quase 40 anos no mercado e é reconhecida pela linha de festa e alfaiataria.

Assim, inspirada em seu próprio lifestyle, que transita entre a vida urbana e a praia, aos 34 anos ela costura uma nova etiqueta: a “Por Maria Manoela”. As criações mostram versatilidade e originalidade, com uma pegada mais comfy, mas sem perder em sofisticação. Com essa nova marca, que foi lançada em agosto durante live para a Vogue Brasil no Instagram, a empresa passa a se apresentar como um grupo de moda.

Filha de dois empreendedores, Maria Manoela Pinheiro Machado soube cedo o que queria da vida: cursar faculdade de Administração. Ela engatinhava sentindo a textura dos tecidos no ateliê da mãe, Laís Tascaroni, empresária à frente da Ton Âge. E aprendeu a ler o mundo em meio a obras de arte e livros do pai, Ivan Pinheiro Machado, pintor e publisher da L&PM Editores. Boa aluna na escola, aos 17 anos foi confiante prestar vestibular na PUC-RS. Para sua surpresa, não passou.

Foi neste aparente tropeço do destino, que surgiu uma oportunidade para ela se conhecer melhor. Não queria ficar um semestre “parada” e, por indicação de amigas, Manoela se inscreveu no curso de moda do Senai, em Porto Alegre. Afinal, esse já era o seu “ninho”. No ano anterior, tinha acompanhado a mãe em uma pesquisa internacional, no roteiro que a empresária costuma fazer duas vezes por ano no circuito Nova Iorque, Londres, Milão e Paris. E não é que a mãe percebeu que a guria tinha um bom olhar para o negócio?

Depois de um ano e meio de curso, o trabalho de conclusão pedia o desenho de 30 looks e a costura de três. Ao voltar de outra trip, trouxe inspiração do SoHo – bairro que respira arte e cultura em Nova Iorque. Manoela, que surfa desde os 14 anos, queria peças casuais, mas diferentes, em sintonia com o seu estilo. Fez uma coleção em jeans, com estampas, bordados e pedrarias.

“Seguir um padrão, principalmente na forma de se vestir, é confortável quando se é adolescente. Mas eu não queria seguir o padrão. Teve uma época em que todas as minhas colegas queriam ter cabelo liso e eu também acabei alisando. Um amigo me olhou e disse que eu tinha me ‘derrubado’ com aquele cabelo. Concordei com ele e resolvi assumir o crespo. Comecei a ver vantagens nisso, a estimular o diferente em mim, simplesmente sendo eu mesma”, lembra a estilista.

Essa busca constante pela identidade veio a se refletir na coleção jeans, com um conceito hi-low, casual chique. E a Ton Âge, apesar de ter na essência a criação de roupas da linha festa e alfaiataria, resolveu comprar a ideia e produziu os 30 looks desenhados para o curso. Assim, há 15 anos, Maria Manoela lançava suas primeiras peças, uma linha que depois (em 2017) veio a se chamar Ton Âge IN.

“Ao longo do tempo como estilista, evoluí, ousei, arrisquei. Passei a me conhecer melhor. E perceber que muito do que eu pensava e sentia não estava impresso nas nossas criações”, relata Manoela.

Vendo a divisão das araras nas feiras, de um lado a Ton Âge, e de outro, a Ton Âge IN, ela se deu conta de que estava incomodada com aquilo. Era a hora de estudar um reposicionamento de marca. Mas aí veio a pandemia… Em fevereiro deste ano, quando as fronteiras começaram a se fechar por conta do coronavírus, Manoela e a mãe retornavam de uma pesquisa em Nova Iorque. E as estilistas já estavam pensando nas próximas criações.

“Sabíamos que era arriscado mudar, sem saber se as pessoas iriam consumir uma marca nova no meio da pandemia. Mas eu tinha um feeling muito forte de que precisávamos fazer algo. Nessas horas, de tomada de decisão, o surfe me ajuda muito, porque o mar te desafia a ter coragem. E coragem não é a ausência de medo, é ir com medo mesmo. O importante é se movimentar. Apesar de não parecer que seria o melhor momento para uma mudança, foi o momento perfeito: tivemos mais tempo para trabalhar no projeto”, avalia Manoela.

Como boa ariana, cheia de energia e sempre pronta para agir, ela acionou seu network. Participante do Ciclo Empreendedor – grupo de jovens gestores fundado pelos filhos dos empresários Jorge Gerdau e Nelson Sirotsky  – há um tempo vinha acompanhando o trabalho de branding  desenvolvido para uma colega. Foi assim que chegou na estrategista de marcas Greice Piacini, de Lajeado. Juntas, desenvolveram uma pesquisa de mercado para conhecer melhor o perfil dos seus públicos e promover o reposicionamento da marca.

Entre as referências, cita o livro “A moda imita a vida”, de André Carvalhal. Foi por esse caminho, literalmente, que chegaram à conclusão de que a estilista era o próprio perfil da marca. Nasceu assim a “Por Maria Manoela”. Na escolha do nome contou com a ajuda da Beauté Killers, produtora que a acompanha há dois anos.

Uma marca: a conexão com a natureza

 Manoela sempre foi uma apaixonada por arte, sol e mar. Por isso, a natureza se tornou uma grande fonte de inspiração para suas criações. A estreia da “Por Maria Manoela” traz essa conexão na escolha da ágata, pedra que transmuta energias negativas em positivas. Nas estampas, peças com tie dye monocromático mantêm a sofisticação da Ton Âge. Outro destaque é a páprica, cor terrosa, considerada um novo básico: neutra, mas que imprime personalidade. A coleção traz leveza e apresenta peças com modelagens mais soltas, que têm um toque mais natural, com tecidos nobres em algodão.

“Buscamos versatilidade. Na sexta-feira vou trabalhar e no final do dia pego meu carro e vou para a praia. Quero estar bonita, elegante e bem-vestida, para esses dois momentos, usando a mesma roupa e calçando um tênis. Desejo um look lindo mas que não precise usar um scarpin para me sentir empoderada em uma reunião de negócios. Queremos conforto, para que a mulher esteja ali por inteira, no auge da sua performance, sem se preocupar com um incômodo salto fino”, define a estilista.

Processo criativo

 Seja na praia ou na cidade, conta que seu processo criativo é um “estado de espírito”. Em todos os lugares está ligada em como as pessoas estão se vestindo. Gosta de passar a virada do ano em Punta del Este, quando consegue captar informações e tendências fashions do mundo todo.

Na hora de transformar as ideias em desenhos, curte ouvir bossa nova e MPB. Acorda às 4h da manhã e canta junto com Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Milton Nascimento, Rita Lee ou Silva. Mergulhada no processo criativo, dorme cedo e acorda cedo.

Nesses períodos, sente-se feliz por poder contar com a compreensão do marido, o empresário Gustavo Bertamoni. Estão juntos há seis anos e ele é parceiro para essas e todas as outras horas, seja para surfar, preparar jantinhas gostosas e também para trocar ideias sobre questões comerciais da empresa.

Maria Manoela faz questão de ser grata, na entrevista e, constatamos, também nas redes sociais, a quem lhe influencia e auxilia na sua trajetória de construção de vida ou marca. Cita e menciona todos, aqui ou acolá. E se tem algo que a nossa estilista que surfa não abre mão, é ter a liberdade de fazer e apresentar suas próprias escolhas e definições, no ímpeto do seu DNA, é claro, mas sem perder a gentileza.

Há 15 anos, no time criativo da Ton Âge

Maria Manoela lidera a grife Ton Âge, fundada por sua mãe, Laís Tarasconi. Soma mais paixão ao que faz com sua própria marca, a ‘Por Maria Manoela’

 Manoela atua há 15 anos na Ton Âge, empresa fundada por sua mãe, Lais Tarasconi. Primeiro ela foi responsável pelas coleções da Ton Âge IN e, há dois anos, passou a assinar também a linha principal – quando assumiu como diretora criativa da marca. O grupo está representado em mais de 200 lojas multimarcas do Brasil e há cinco anos lançou seu próprio e-commerce. Preza pelo processo handmade e por peças que possam vestir de forma impecável todos os tipos de silhuetas. Em fevereiro, desembarcou nos Estados Unidos, com a Coleção Royal, inspirada na realeza britânica.

No início da pandemia, em março, a marca inovou ao lançar uma linha de pijamas sofisticados, a Palazzo. Com a proposta, conseguiu manter uma conexão com as clientes, que estavam em home office; usar os tecidos que tinha em estoque e ainda promoveu a ação Homewear do Bem. A cada pijama vendido, uma cesta básica foi doada para a Casa de Apoio Madre Ana, do Complexo Santa Casa de Misericórdia, em Porto Alegre.

No primeiro semestre deste ano, a Ton Âge aumentou em 50% suas vendas online, em relação ao mesmo período do ano passado. Uma das metas para 2021 é digitalizar todos os processos da empresa.

Conteúdo publicado na edição 48 da revista Gente que Faz



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