
Somos negligentes
Publicado em 19 de agosto de 2016A negligência tão presente no nosso comportamento cotidiano, pode explicar, em parte, a eclosão da crise do zika vírus que tanto atormenta a população. Muito do que temos visto e ouvido, nos jornais, rádios, TVs e redes sociais sobre o descontrole nos gastos públicos, a corrupção ou a excessiva burocracia, atrapalhando a economia, são consequência de nossa omissão e falta de vigilância! Não falo apenas de nossa capacidade de eleger bons governantes, mas das responsabilidades individuais diárias – em casa, no trabalho ou na escola.
Refiro-me, por exemplo, ao desalinhamento entre nosso comportamento e as atitudes necessárias à consolidação de uma cultura de civilidade. Negligenciamos em atos aparentemente simples, como o respeito às filas, aos limites de velocidade, à sinalização, ao uso racional da água ou ao cuidadoso uso de bens públicos. São muitos os exemplos de nossa negligência! É emblemático o caso do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, da chikungunya e do zika vírus, relacionado aos mais de 700 casos de microcefalia confirmados no Brasil. Para enfrentar esse “vilão”, a pesquisadora Rose Monnerat, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), desenvolveu, em 2007, um inovador bioinseticida, coincidente à incidência de muitos casos de dengue no Distrito Federal, à época. A pesquisadora, com o apoio e envolvimento de toda a comunidade, conseguiu controlar a reprodução do mosquito na cidade satélite de São Sebastião, situada a apenas 20 quilômetros da Praça dos Três Poderes, em Brasília. Foi um bom exemplo de envolvimento sinérgico das pessoas: comunidade escolar, professores, pesquisadores, agentes de saúde, pais, líderes comunitários e autoridades. A mobilização, envolvendo a participação dinâmica de crianças, adolescentes e adultos, em atividades extra-curriculares, no ensino fundamental, médio e superior, garantiu a erradicação do mosquito, hoje motivo de enorme preocupação da sociedade brasileira. Por negligência, aquele modelo tão bem sucedido de política pública preventiva, na área de saúde, se perdeu no tempo. A negligência foi, também nesse caso, maior que a responsabilidade na continuidade daquele relevante projeto. A negligência colocou o Brasil na desconfortável situação de epidemia do zika vírus, reconhecida pela OMS. A Organização Mundial de Saúde, com o aumento dos casos de zika vírus, admitiu que a situação no Brasil é grave. O que ocorre hoje em relação ao mosquito é o visível reflexo de nossa negligência. Combater a dengue e o mosquito transmissor dessa e de outras doenças é uma obrigação de todos nós. Essa responsabilidade envolve desde a plantinha que temos em casa plantada em vaso, aparentemente inofensiva, até a piscina de uma casa abandonada, ou pneus e garrafas jogados nos entulhos, criatórios do mosquito. Os poderes públicos e a sociedade precisam se envolver nessa guerra contra o mosquito.
A negligência compromete soluções duradouras. No final dos anos 90 e início do ano 2000, uma grave crise atingiu o setor de energia no país. Lembro do apagão energético que obrigou, de modo vigilante, em algumas regiões do país, a manter lâmpadas apagadas e evitar o desperdício de energia. Banhos foram racionados, a utilização de luzes foi controlada, rigorosamente, e aparelhos com elevado consumo energético foram descartados dando lugar a equipamentos sustentáveis e econômicos. Terminado o “apagão”, continuamos perdulários, tal qual ocorre hoje, em São Paulo, com a água. Usamos energia e água como se fossem fontes inesgotáveis. Nossa negligência prevaleceu e continuará sendo sempre uma perigosa ameaça, enquanto cada um de nós esquecer que a educação e a responsabilidade consciente são, sem dúvida, os melhores aliados à construção de uma sociedade pacífica, civilizada e comprometida com o bem público, os valores e princípios éticos e democráticos.
Ana Amélia Lemos
Senadora pelo Rio Grande do Sul
Pensata publicada na edição 29 da revista Gente que Faz
Tags relacionadas
ana amelia lemosComente
Compartilhe!
POSTS RECENTES

Todas as versões de Carolina Manica
Há duas décadas em São Paulo, a estrelense Carolina Mânica construiu uma trajetória que reúne atuação, direção, produção e locução, sem perder os laços com o Vale do Taquari O enredo que Carolina Mânica escolheu para a própria vida exigiu coragem. Aos 24 anos, ela deixou o Rio Grande do Sul, precisou ficar longe da […]
LEIA MAIS
Giostra celebra dois anos com novo giro pela Itália e receitas inéditas de Carla Pernambuco
Restaurante do Casa da Montanha, em Gramado, atualiza o cardápio e o El Perro, Bar & Snackeria do hotel, também traz novidades Após completar dois anos em julho, o Giostra inicia um novo giro pelos sabores da Itália. Desde segunda-feira, 17 de agosto, o restaurante do hotel Casa da Montanha, em Gramado, apresenta novas receitas […]
LEIA MAIS
A beleza em novo endereço
Dermatologista Julia Ribar inaugura clínica em Lajeado que reflete sua visão da dermatologia: sofisticada, acolhedora e comprometida com a beleza natural Discrição, elegância e naturalidade são atributos que acompanham o trabalho da dermatologista Julia Ribar. Não apenas nos resultados que busca entregar às pacientes, mas também na forma como entende o cuidado. Agora, essa filosofia […]
LEIA MAIS











