Uma mulher de fibra no mundo do aço

Quando nossa equipe chega em Imigrante, no interior do Rio Grande do Sul, para a entrevista com dona Elka Hassmann, ela vai logo largando uma das suas. “Vieram para a entrevista? É aquele tipo de coisa que num dia eu digo sim e, no outro, penso: por que não disse não? Não sei como me casei.” Arremata a brincadeira e logo cai na gargalhada

Com 91 anos, dona Elka comparece diariamente à Metalúrgica Hassmann, empresa que fundou com o marido – o austríaco Karl Hassmann – em 1956 e hoje é uma das principais fabricantes de parafusos do Brasil. Até cinco anos atrás, antes de ficar viúva, ela ainda tratava por telefone com clientes de fora do país. E eles, com o estreitamento dos laços, não acreditavam quando descobriam a sua idade, tamanha a desenvoltura nas negociações.

O que torna dona Elka uma pessoa interessante não é somente sua trajetória batalhadora à frente da empresa – cheia de percalços e superações – mas também o seu jeito de levar a vida. Uma mulher de fibra, culta e bem-humorada. Leitora assídua, alterna uma obra em português e outra em alemão. No momento tem em mãos “A Danças dos Assassinos”, título sobre o Reinado da Áustria. Em casa, dança sozinha ao som das valsas de Strauss. E, quando está relaxando na piscina, não dispensa uma pequena dose de Chivas.

Em Santiago do Chile, dona Elka documenta sua viagem, o que sempre tinha como hábito. Agora dedica seu tempo também ao registro de sua trajetória de vida

Uma menina à frente de seu tempo, dona Elka deixou a casa dos pais, em Imigrante, com apenas 12 anos de idade. Para poder estudar, foi morar e trabalhar com uma irmã que tinha uma pensão e um mercado de secos e molhados, em Lajeado. Depois da adolescência, decidiu tentar a vida como professora.

Primeiro conseguiu uma oportunidade em Marcelino Ramos. Depois foi para Carazinho, para lecionar no Colégio Metodista, com a intenção de trabalhar para a rede em São Paulo. E conseguiu. Lá, estudou línguas e conquistou uma bolsa de estudos para a África. Mas ela não chegou a cruzar o oceano.

Em 1953, embarcou para Santo André (SP) em uma viagem de ônibus que mudaria completamente o seu destino. Ao procurar assento vago, acomodou-se ao lado de um jovem. Era Karl Hassmann, um austríaco que aos 20 anos havia vindo para o Brasil, estava morando com a irmã em São Paulo e trabalhava como torneiro mecânico na Firestone.

Casaram-se e ficaram três anos na cidade. Período necessário para que ele concluísse o trabalho na montagem de um moinho. Enquanto isso, ela, junto com outras 33 professoras, lecionava em uma comunidade de imigrantes com mais de mil alunos de diferentes raças.

“Com o término do moinho, Karl foi convidado a trabalhar como mecânico. Mas não aceitou. Seu sonho era produzir algo em série e que seguisse normas de fabricação. Um produto que pudesse ser vendido não só no Brasil, mas em todo o mundo”, recorda dona Elka.

Foi assim que há mais de 60 nasceu a Metalúrgica Hassmann, hoje conduzida pelos filhos do casal – Peter e Carlos – já com o acompanhamento da terceira geração, representada pelos netos Augusto e Letícia. São fornecedores de produtos para a indústria automotiva, agrícola e eletroeletrônica. Com capacidade instalada para produzir mais de 30 mil diferentes tipos de parafusos, rebites e peças especiais, abastecem o mercado interno e exportam para países como México, Argentina, Alemanha e Estados Unidos.

Elka e Karl com os filhos Carlos e Peter e com os netos Letícia e Augusto

Tempos difíceis

Em 1956, com a ideia de abrir a fábrica, o casal decidiu se mudar para Imigrante. Compraram um pedaço das terras do pai dela para instalar um pequeno prédio. No início, tinham como sócios o irmão e mais dois conhecidos – um gaúcho e outro paulista. Produziam esquadrias, carrinhos de mão e móveis de aço. Ela aprendeu a lidar com torno, furadeira, a rebitar e pintar janela. E foi somente em 1960 que começaram com os parafusos.

Dona Elka relata que viveram tempos difíceis: ”Quantas vezes eu molhava o travesseiro chorando. Não queria ficar aqui. Eu vim de São Paulo, onde eu tinha um salário e um emprego muito bons e tantas amizades. Fora isso, havia muitas histórias de indústrias frustradas na região. Recentemente uma tecelagem com 40 funcionários havia fechado. Tinha também a repercussão negativa de uma fábrica de ladrilhos. O dono vendeu os azulejos, cobrou, não entregou e se mandou. Então chegamos nós, vistos como mais uns estrangeiros que tinham vindo para explorar o povo. Isso não foi nada fácil.”

Ela conta que durante um bom tempo ia ao açougue e só comprava fígado. Diz que sabia preparar no mínimo 20 variedades diferentes de pratos com o miúdo. Até sopa de fígado fazia. Não bastasse as condições, ainda precisava suportar a humilhação de um dos sócios do açougue, um ex-colega de escola. Quando o estabelecimento estava cheio de clientes e ele a via ela entrar pela porta, gritava de trás do balcão: “Hoje a senhora veio comprar carne?”. Ao que ela respondia: “Não, só fígado”.

Fiquei 12 anos sem um centavo de salário. Se for necessário, você se acostuma à miséria, desde que se tenha uma perspectiva”, analisa.  

Nos anos 1970, os Hassmann chegaram a vender a fábrica. Os novos donos queriam que dona Elka ficasse como secretária por quatro anos. Fecharam o negócio na sexta-feira, embora ela não estivesse convencida de que era isso o que realmente queria. Não conseguiu dormir naquela noite, nem nas duas seguintes. Na segunda-feira, não assinaram o contrato. Decidiu que se fosse para ficar trabalhando, que fosse então com o marido. E ele concordou.

 

” Imagine se eu ficasse aqui me queixando ‘Ai, eu tenho artrose”. Tenho sim. Mas vocês ficaram sabendo? São coisas da idade. A gente tem que ser feliz em qualquer situação da vida.”

“Eu não seria nada sem ele, e ele não seria nada sem mim. Então juntamos o nada e o nada e fizemos isso aqui (risos). A gente nunca pode se desesperar. Por isso é bom você ter um companheiro do seu lado, para quando você diz: ‘Eu não quero mais’, ele responda: ‘Nada disso. Nós chegamos até aqui e vamos continuar’. E quando ele queria desistir, era eu quem o estimulava”.

A empresa passou por diversas fases de crescimento e superação, com todo tipo de história. Certa vez os Irmãos Maristas fecharam um negócio com os Hassmann e entregam o equivalente a R$ 19 mil para a compra de ferro para uma obra.

“Morando em num barraco alugado, não tinha onde guardar o dinheiro, a porta era trancada com tramela. Pensei: ‘O que vou fazer?’. Coloquei o dinheiro num cofrinho de metal e escondi em baixo de uma tábua que estava solta no assoalho”, lembra dona Elka.

São tantas histórias que ela está escrevendo um livro, para que os familiares conheçam toda a caminhada da fábrica e os sacrifícios que foram enfrentados para que se chegasse no patamar de hoje.

Em 1956, seu Karl veio com dona Elka para Imigrante. Compraram um pedaço das terras do pai dela para instalar um pequeno prédio. Em 1960, começaram a produzir parafusos

O casamento

Dona Elka e seu Karl foram casados por 61 anos. Sem dinheiro para viajar no início da união, ela só conheceu o sogro e a sogra depois de 14 anos de casada, quando os filhos tinham 3 e 6 anos de idade. Mas neste tempo todo se comunicava com eles por cartas, enviadas semanalmente. A visita à Áustria aconteceu em 1967 e os dois faleceram no ano seguinte, com uma diferença de 17 dias.

“Minha sogra escreveu a carta mais bela que eu já recebi em toda a minha vida. Tenho a carta guardada até hoje. No texto, ela diz assim: ‘Imagino o quanto meu filho deve te amar para deixar os pais. Quanto amor ele deve ter por você. E eu sei que você fez ele feliz.”

Ambos com personalidades fortes, tinham também suas discussões. Mas nunca iam dormir sem desejar um ao outro, em um dialeto austríaco, “Deus te guie”. Foram separados por um câncer, que levou o marido em setembro de 2014.

Uma pequena mostra de como eram cúmplices e de como se conheciam tão bem está no dia em que o casal foi vítima de um assalto. Invadiram a casa e agrediram os dois. Dona Elka, com um ferimento na cabeça que sangrava muito, precisava ir ao hospital para levar pontos. Mas antes de procurarem atendimento, o marido perguntou: “Está com vontade de tomar um champanhe”. Ela prontamente aceitou.

Nossa entrevista vai se encaminhando para o final, e pedimos que ela – com a experiência de quem vai completar 92 anos no dia 31 de dezembro – fale sobre como encarar as adversidades da vida.

“Sorrir não custa nada. Quando você é bem-humorado as pessoas te procuram. Imagine se eu ficasse aqui me queixando ‘Ai, eu tenho artrose’. Tenho sim. Mas vocês ficaram sabendo? São coisas da idade. A gente tem que ser feliz em qualquer situação da vida. E não espere que os outros façam a sua felicidade. Faça você a sua felicidade.”

 

Por Josiane Weschenfelder Rotta

Publicado na edição 46 da Revista Gente que Faz



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