Silvana Zanon: a arte do savoir-vivre

Do francês, “saber viver”. Conceito que, ao estilo de seu povo, valoriza as regras de etiqueta mas vai muito além disso: envolve o convívio social, o comportamento amável e a arte da conversação. Este é o tema do livro “O savoir-vivre é um jogo”, escrito pela antropóloga Geneviève d’Angenstein e que ganhou uma versão brasileira, ampliada pelo olhar da estudiosa gaúcha Silvana Zanon e publicada pela Editora Sulina

“As pessoas estão perdendo o jeito de se relacionar. Acabam esquecendo que, mais do que simplesmente conviver, precisam cuidar das relações. Isso requer dedicação de tempo e atenção para com o outro, para que se tenha uma troca saudável e positiva. Esse diálogo é um jogo de inteligência, de sedução, de alegria”, analisa a tradutora Silvana Zanon.

Entre tantas referências ao savoir-vivre, a obra cita as regras de São Bento, que revolucionaram uma sociedade guerreira no século VI: respeite os homens, nunca aja sob o impulso da raiva, mantenha a humildade e perdoe.

 

Imbuida desse desejo de disseminar o tema, ela logo se interessou pela obra de Geneviève d’Angenstein, que é diretora da escola Business Etiquette Paris e membro do Internacional Women Forum (IWF), importante organização voltada a mulheres ativas e influentes no mundo. O que também contou para Silvana foi o fato de a escritora ser antropóloga, e apresentar uma abordagem com lastro histórico e cultural.

Entre outras curiosidades, o livro revela que as origens da etiqueta podem ser encontradas na Bíblia, em uma mensagem do Evangelho que nada mais é do que a base atemporal do convívio social. Está em em Lucas 6:31 “Como quereis que os homens vos façam, fazei a eles também”. Outra referência é ao filósofo e diplomata francês Henri Bergson, que acreditava no poder da boa educação para uma sociedade mais igual e justa: “No fundo da boa educação, existe o amor pela igualdade”. Seus ensaios são do começo do século XX, mas parecem mais contemporâneos do que nunca.

Depois de contextualizar o tema, o livro apresenta uma grande aula de etiqueta e boas maneiras, discorrendo sobre regras e dicas práticas. Silvana dedicou-se por dois anos ao conteúdo e entrega no Brasil uma versão ampliada. E que chega ao país em um período muito oportuno.

“Estamos vivendo um momento histórico de muita importância, que ficará gravado na memória das próximas gerações. Com a pandemia, estamos diante de um movimento social em prol dos mais carentes que sofreram com a doença e o desemprego. Esse é um movimento de generosidade, que é uma das virtudes e um dos pilares da etiqueta”, sublinha a estudiosa.

Como discordar de alguém sem agredir?

O livro abraça uma série de questões do cotidiano, contibuindo para que o leitor tenha êxito em qualquer círculo que frequente. Quais são os segredos de um jantar elegante entre amigos? Qual postura adotar em uma entrevista de emprego? Quais erros devem ser evitados num encontro a dois? E de onde vem a polidez que tanto prezamos? Como viver em harmonia, em sociedade, sendo você mesmo?

Entre tantas questões, uma delas cai como uma luva em tempos de opiniões polarizadas, trazendo a relação intrínseca de etiqueta, delicadeza e respeito: “Como discordar de alguém sem agredir?”. Neste ponto, a autora faz alusão a Sócrates, que como bom dialético, consiste em “dar à luz” às ideias de seu interlocutor, questionando-o. E sugere contraposições polidas, que iniciem na linha do “Você tem razão de certa maneira, mas não poderíamos pensar que…”.

No Instagram

Silvana apresenta um ateliê no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, e, reúne grupos de interessados para rodas de conversa sobre a obra.  Coloca em em prática o que ela própria relata no livro, resgatando a época da corte, quando mulheres promoviam reuniões como uma espécie de laboratório de ideias.

“Esses momentos de encontro para trocar ideias, para tomar uma champanhe, celebrar a vida, fazem a gente crescer”, reflete a escritora.

O asssunto segue vivo no Instagram, onde ela divide sua experiência estudando sobre etiqueta para a tradução do livro. Com um tratamento leve e pertinente, o tema pode ser acompanhado no @savoirvivrebrasil. Uma das dicas é o vídeo sobre Netiqueta, termo usado para conceituar uma nova forma de civilidade: a etiqueta na internet (post de 14/03/2021).

 

“O livro não trata só de regras de etiqueta. Aborda também a importância do clima e a forma como será conduzida a conversa. Ao chegar e sair do contato com uma pessoa, ela deve ter a sensação de que está mais feliz depois que conversou com você. Essa é a essência do livro, é algo que o mundo está precisando”, Silvana Zanon.

 


Sobre a tradutora

Silvana Zanon é engenheira química de formação, pós-graduanda em Ciências Humanas na PUC-RS e graduanda em Psicologia. Foi cofundadora de uma empresa familiar na qual trabalhou como executiva por 18 anos e onde hoje atua como membro de seu conselho. É também conselheira da Bienal do Mercosul e foi conselheira do Memorial do Rio Grande do Sul. Ela desenvolve inúmeros projetos ligados à educação infantil e à arte. É autora e editora de vários livros, como Para 12 singulares mulheres 12 diferentes flores; Ao lado de Maria – uma lembrança italiana; Memórias de alfabetização de mundos; e Curumim Contou/Kyringue OmomBe’u, uma edição bilíngue português/guarani.


Conteúdo publicado na edição 51 da revista Gente que Faz



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