“O cenário é desafiador para o Brasil”, afirma Aod Cunha

O ano chega ao fim e não foram poucas as intempéries sobre a economia global: uma pandemia, pandemia, uma guerra e a desaceleração no crescimento da China. Focando na nossa aldeia, um período eleitoral conturbado, necessidade de reformas e a urgência de voltar os olhos a áreas determinantes, como a educação. Para tratar sobre estes temas com o empresariado gaúcho, a Câmara Americana de Comércio (Amcham – Porto Alegre), deu início à segunda etapa do Projeto RS Avança. Em meados de novembro, o palestrante foi o economista Aod Cunha, que falou sobre perspectivas no cenário global e a economia brasileira a um seleto grupo de executivos. Profundo conhecedor do tema, o ex-secretário da Fazenda, conselheiro de grandes empresas e um dos principais mentores do governador Eduardo Leite – desde o seu primeiro mandato – Aod Cunha aponta as dificuldades, mas assinala oprtunidades para o país e para o Rio Grande do Sul. Chegar lá, é questão de fazer o dever de casa. Confira algumas pinceladas da sua fala aos executivos.

Economia global

O cenário hoje é de inflação elevada, juros subindo e desaceleração mais rápida do crescimento. Europa e Estados Unidos estão com a inflação muito alta para os padrões históricos. Isso tem a ver com uma combinação, que já vem há muito tempo, e que foi agravada pela pandemia, que causa uma restrição da oferta, com a China fazendo lockdown. Além disso, vem a guerra na Ucrânia. É um somatório de eventos que faz com que os preços subam muito e a taxa de juros passe a subir, ainda que mais tardiamente na Europa e nos Estados Unidos – no Brasil começou a subir antes. Quando a inflação começa a acelerar, não tem outro mecanismo a não ser taxa de juros subir para trazer para baixo a demanda durante algum tempo. Isso, evidentemente, condiciona a própria política econômica e o ambiente que o Brasil vai enfrentar.

Menos crescimento

O que próximo governo vai enfrentar não é um ambiente de mundo crescendo robustamente, como foi na última década. Principalmente depois da crise de 2009, a gente passou muito tempo neste cenário, com muito estímulo monetário, financeiro e o mundo crescendo. Hoje, existe um outro elemento importante que é a China (tem uma mudança de regime político, a China está crescendo abaixo de 3%, esta é a nova orientação de Xin Jinping). Neste cenário, o Brasil tem uma inflação que começou a ceder nos últimos meses, principalmente por conta de uma série de intervenções de redução de impostos que foram fechadas no Congresso, que atingiu os estados e isso ajudou bastante. Mas está longe de ser uma batalha vencida. É por tudo isso que o Banco Central continua bastante cauteloso. A tentativa é, para o final de 2023 e início de 2024, trazer a inflação para a meta. Apesar de a inflação estar cedendo, apesar do PIB estar com um desempenho melhor do que se esperava no início do ano – está róximo de 3% -, tudo indica que vamos continuar com juros altos durante um bom tempo. E isso acaba trazendo impactos diversos do ponto de vista de demanda, de investimentos, de inadimplência e do endividamento  das famílias.

 

Política econômica

O cenário é bastante desafiador para o Brasil, seja pelo cenário global, seja pelos ajustes que já estavam acontecendo neste ano, e com um adicional que é esta incerteza sobre como será a equipe econômica, qual vai ser a política econômica no próximo governo. Já tivemos uma mensagem do próximo presidente defendendo uma ideia de uma expansão maior de gastos, junto com uma PEC de um teto de gastos que tira um conjunto grande despesas, que antes estava limitado num teto que era o Auxílio Brasil, que deve virar o Bolsa Família de novo. Este contexto já mostra como vai ser este desafio.

Retração

Tudo indica que, neste final de ano e início de primeiro trimestre, a gente vai ter alguns sinais de retração de atividade econômica, provavelmente vai ter algum dado negativo e a gente já consegue olhar os índices de exportação. O momento global é mais difícil. O mundo está num período diferente em relação ao que foi nos últimos dez anos, na medida que o mundo não vai continuar com este ciclo de riqueza.  Crescimento inferior Nós temos um mundo diferente hoje, não é mais aquele mundo dos últimos 20 anos de crescimento muito fácil, com China crescendo 10% ou 12%. É bem menos o que temos hoje e com preços subindo, com taxa de juros mais altas num cenário externo. Isto para os emergentes, não só Brasil, traz mais dificuldade para atração de capital e nós temos nossos desafios internos do ponto de vista de cenário fiscal e, mais do que isso, o Brasil tem um desafio que é mais longo: nós temos uma economia que cresce menos do que a do mundo há muito tempo, que cresce menos porque a nossa produtividade é mais baixa e porque nós estamos eternamente não conseguindo avançar mais rápido nas reformas: Reforma Tributária, Reforma Administrativa e melhora da qualidade da educação.

Conteúdo publicado na edição 55 da revista Gente que Faz

China e Índia

O que temos de diferente hoje na China: Xi Jinping vai ter uma renovação no mandato, tem uma postura nova da China muito mais preocupada com a força geopolítica do que com elevar o crescimento econômico a todo custo, até porque a China já está no final de transição demográfica, como ocorreu com o Japão e com a Coréia. Então, não é mais uma China crescendo a 12% ou 10% e isso é relevante para o Brasil. A gente sabe o quanto o Brasil é um país bastante dependente de commodities, de preço de commodities. No primeiro governo Lula, nos dois governos, de 2003 até 2010, foi um período em que a China cresceu muito e isso não vai mais acontecer. Claro que tem outras partes do mundo que podem começar a absorver isso e a minha maior aposta é a Índia. A Índia está com um crescimento bastante robusto, tem uma demografia bem mais favorável que a China.

Relações comerciais

É um mundo novo, as relações comerciais são diferentes e, apesar disso tudo – com China desacelerando e com a Guerra da Ucrânia -, visivelmente há um cenário para se formarem blocos diferentes, talvez com a Europa mais próxima dos Estados Unidos, e um ambiente com a China estreitando relações com a Rússia e boa parte da África. Para o Brasil, isso tem um aspecto que pode ser bastante positivo, isso pode ser uma oportunidade, mas será uma oportunidade se a gente fizer a lição de casa, se o Brasil tiver uma receita tributária melhor, infraestrutura e logísticas melhores e investir em mão de obra.

Produtividade estagnada

O Brasil, há quatro décadas, cresce menos que o mundo e muito menos que os países emergentes. Por que o Brasil cresce menos? Porque estamos com nossa produtividade estagnada há muito tempo, não vai ser com mais gasto público, não vai ser com bancos emprestando mais dinheiro, que isso mudará. A gente tem um problema de produtividade, educação, qualificação da mão de obra, sistema tributário e forma como o setor público trabalha. Este arranjo de coisas que nos torna menos eficiente.

Envelhecimento da população

Nas últimas décadas, o Brasil ainda contou com o benefício de ter uma população muito jovem. Nós tínhamos muitas pessoas para entrar no mercado de trabalho e isso deu o chamado bônus demográfico. Nos últimos 20 anos, a gente viveu este bônus demográfico. Mas a velocidade do envelhecimento é muito rápida. O Brasil é a sexta transição demográfica mais rápida da história em 20 anos. Assim, a quantidade de horas disponíveis de pessoas que vão estar trabalhando no Brasil vai diminuir, então, a produtividade tem que aumentar. Como é que eu quero mais riqueza se uma parte menor da população está trabalhando? Precisamos aumentar a produtividade e isso está ligado a reformas: precisamos melhorar dramaticamente a qualidade da educação no Brasil, precisamos fazer uma Reforma Tributária. Esta é a missão de futuro para os próximos 10, 15, 30 anos… Senão, vamos continuar crescendo menos que o resto do mundo.

Oportunidades para o Brasil

O que mais preocupa agora? O governo não pode errar na política fiscal. Depois, a gente precisa fazer a Reforma Tributária e a Reforma Administrativa. O país passou a ser muito dependente de commodities, por isso, dá essa falsa sensação de que pode sair gastando mais, porque o preço das commodities vai ajudar. Mas tem duas boas oportunidades no cenário externo: uma é a relocalização de cadeias produtivas – Estados Unidos e Europa já estão discutindo isso e há movimentos novos da China. Essa ideia que você pode ter as suas cadeias completamente fragmentadas globalmente onde for mais barato, que vai possibilitar que você tenha alguma relocalização. O Brasil poderia ser um candidato forte: um país que nunca teve guerra, país que tem tamanho, mão de obra e um mercado financeiro desenvolvido. Outra oportunidade é a economia verde, sustentabilidade, descarbornização, energia limpa. O Brasil tem uma matriz muito limpa, apesar de termos que enfrentar o tema desmatamento na Amazônia, que dá um barulho danado lá fora, inclusive para investidores. Mas o Brasil tem uma matriz energética muito baseada em energias hídrica, solar e eólica, que estão crescendo, e isso é bom.

Conteúdo publicado na edição 55 da revista Gente que Faz

E o Rio Grande do Sul?

O Rio Grande do Sul não é uma ilha e depende da trajetória econômica do país. Quais os principais desafios de longo prazo para a economia gaúcha? Precisamos manter o equilíbrio fiscal, lidar com o envelhecimento populacional, investir em educação e trabalhar a questão da irrigação. Também ver novos eixos de promoção de investimentos, além do agronegócio, capital humano, qualidade de vida, transição energética, saúde e inovação.

Equilíbrio fiscal

Se o Brasil for mal, vamos ter muita dificuldade para crescer. Se o Brasil for bem, vai nos ajudar bastante. Temos os desafios peculiares do Rio Grande do Sul, um deles é manter o equilíbrio fiscal, a gente passou décadas e décadas com um déficit muito alto, sem capacidade de investir, atraso nos salários, isso vira uma desorganização grande.

Irrigação

Outro desafio do estado é a questão da irrigação. Ao longo de décadas, as secas continuam sendo o principal fator de volatilidade e de perda de produto potencial no Rio Grande do Sul. É um tema complexo, se fosse fácil, já estava resolvido. Mas estamos mais próximos de uma conscientização para resolver o problema. A cada quatro anos temos uma seca, precisamos enfrentar isso.

Capital humano

Um ponto favorável é a qualidade do capital humano, podemos atrair empresas, porque nosso capital humano é bom. Quanto ao envelhecimento da população, o Rio Grande do Sul antecipou o envelhecimento acelerado que o Brasil terá. Há consequências na Previdência, Saúde, Educação, entre outras áreas. Teremos uma força de trabalho ativa proporcionalmente menor à força inativa, o que exigirá um capital humano melhor preparado.

Educação

O Rio Grande do Sul precisa voltar a ambicionar ser um dos melhores (se não o melhor) na educação do Brasil. O estado, durante muito tempo, nas décadas de 50, 60 e 70, foi reconhecido por ter uma educação melhor que o resto do Brasil, formou uma mão de obra diferenciada, mas foi perdendo isso.

 



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