Nilson Luiz May, um líder com duplo ofício

Uma das vantagens da vivência é ter o que contar. Precisamos reconhecer que essa frase, quando dita por Nilson Luiz May, ganha outra envergadura. Pois se há algo que não lhe faltam são histórias para contar. Seja pela carreira como médico estudioso, referência nacional em liderança no setor da saúde, seja pela mente criativa do escritor que já publicou sete narrativas de ficção. Uma vida desenhada pela área de humanas, com o mesmo amor pelas duas profissões. Na sua autodefinição, “um homem com duplo ofício” – em alusão ao termo cunhado pelo britânico Charles Snow

 

Em novembro de 2021, no Tá na Mesa – Federasul, Dr. May lançou a segunda edição do livro “Liderança Duradoura, Cinco Décadas de Vivências Reveladas”, com cartoons de Ronaldo Cunha Dias. A partir de exemplos pessoais, oferece lições que podem influenciar e inspirar trajetórias com propósito e foco em resultados efetivos. Na sua jornada como liderança, destaque para a atuação no Sistema Unimed. Desde 1985, o médico está à frente da Federação Unimed/RS e atualmente exerce o cargo de vice-presidente da Confederação Regional Unimed Mercosul, que reúne Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

O entrevistado conta que vem se desvencilhando de alguns compromissos. Cansado das frequentes viagens a São Paulo, ele conta que vem se desvencilhando de alguns compromisso, tanto que em junho declinou da presidência da Unimed Participações S.A. (Holding da Seguros Unimed) – posição ocupada por dez anos. Entretanto, ainda se mantém bastante ativo. Por ora, dedica-se à rotina de presidente da Federação – que completa 50 anos em 2022; em parceria com o filho, o filósofo Nilson Rodolfo May, administra a Scriptum Produções Culturais; está escrevendo sua oitava narrativa de ficção, a ser lançada em março; e prepara-se para retomar o futebol semanal com os amigos, que havia deixado de lado por causa da pandemia.

Concedeu essa entrevista enquanto estava em home office, no gabinete de seu apartamento, em Porto Alegre, onde reservou dois cômodos inteiros para uma biblioteca particular. Organizou em ordem cronológica o acervo com mais de 4,5 mil títulos – começa com Homero (poeta grego dez séculos antes de Cristo) e segue até a literatura atual.

Sobre o entrevistado

 

Nilson Luiz May é médico, palestrante e escritor. Natural de Santa Cruz do Sul, formou-se em Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com especialização em Gastroenterologia, e em Letras, com ênfase em Literatura Português, pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Foi fundador da Unimed Vales do Taquari e Rio Pardo (Unimed VTRP), sediada em Lajeado e uma das primeiras singulares do sistema no Estado. É um estudioso dos assuntos relacionados à saúde, com duas centenas de publicações de artigos, ensaios e comentários sobre o tema. Neste campo é autor do livro “Pelos (des)caminhos da medicina assistencial brasileira”.

Na literatura, já publicou outros sete livros: Terra da boa esperança, Inquéritos em preto-e-branco, Céus de Pindorama, A máquina dos sonhos, Misterioso caso na repartição pública, Última chamada e Bosque da solidão. May é membro titular da  Academia Sul Rio-grandense de Medicina – Cadeira nº 7 (cujo Patrono é Aureliano de Figueiredo Pinto), e da Academia Rio-Grandense de Letras – Cadeira 10 (cujo patrono é Aquiles José Gomes Porto-Alegre).

# Quando nasceu o líder Nilson May?

Com 14 anos fui convidado pelo colégio onde estudava, em Caxias do Sul, para ser professor à noite. Tinha terminado o ginásio (hoje Ensino Fundamental) e estava entrando no curso científico (atual Ensino Médio). A ideia era lecionar para adultos que tinham deixado de estudar, passando noções básicas de português, matemática, história e geografia. O interessante foi que os Irmãos Lassalistas só me disseram isso: tu vais lecionar essas matérias. A partir daí é que eu considero a fase mais importante da minha formação como liderança. Tive que construir um perfil, sendo um absoluto autodidata. Ali comecei a aprender como me comunicar com clareza, a dominar plateias, a interpretar cada gesto ou manifestação, verbal ou corporal, e a observar como se comportam as pessoas em grupo. Frequentava a escola de manhã, à tarde já me preparava em casa para o vestibular e à noite lecionava. Para dar conta de tudo precisava de organização, característica indispensável em um líder e que considero a base de todo progresso pessoal. Fiz isso durante três anos e, com 17 anos, passei no vestibular para Medicina, na UFRGS, em Porto Alegre.

# Desde muito cedo já havia o interesse pelas letras e pela medicina.

Sou totalmente inepto para qualquer coisa que envolva cálculo, contabilidade, tabelas. Querem me mostrar e eu não quero aprender. Meu perfil é das humanidades, das letras, do pensamento. Minha medicina sempre foi humanista, voltada para o paciente. Não é uma medicina de tecnologia. Embora esteja há dez anos afastado do consultório, até hoje fico surpreso quando alguém pede uma tomografia para fazer diagnóstico de apendicite aguda. Faço o diagnóstico só com exame de laboratório, namnese e exame físico. Talvez por isso tenha me dado bem na medicina, porque naquela época não tínhamos tantos exames à disposição, e precisávamos direcionar toda a nossa atenção para o paciente.

# Fale sobre a expressão “duplo ofício”.

Foi um termo cunhado por Charles Snow. Ele usa a expressão para explicar o fato de a pessoa exercer duas atividades distintas, na área das ciências e na área das artes. Quando consegui me enquadrar nisso, consegui entender melhor essa situação. No passado, as pessoas comentavam: “o Dr. May é médico, mas ele tem um hobby que é a literatura”. Hobby é coleção de carteiras de cigarro, de latas de cerveja. Estudo literatura há mais tempo do que medicina. Meu conhecimento sobre a literatura ocidental, autores e gêneros, suporta qualquer mesa de debate ou algo desse tipo. Tenho, na minha vida, um duplo ofício, que até dez anos atrás era exercido igualmente. Continuo sendo médico, mas agora apenas atuante no outro ofício, o literário. E se considerarmos aí a administração e a gestão da Unimed, ficaria num triplo ofício. Embora eu não desvincule muito uma coisa da outra.

# Na presidência da Federação Unimed/RS o senhor já soma 36 anos. Há um segredo para liderar por tantos anos?

Talvez haja. Porém, não será num passe de mágica ou fazendo um curso rápido que você se transformará num líder. Nas últimas décadas, muita coisa mudou. Porém, o que não deve mudar são os princípios e valores. Ao longo de “Liderança Duradoura”, coloco que há que se ter organização, respeito, humildade, integridade, transparência e coragem. E como disse Winston Churchill, “Sucesso não é o final; a falha não é fatal. É a coragem para continuar que conta.” Permaneci firme aos meus princípios e valores, sem descuidar dos avanços da modernidade, o que me fez vencer angústias, oscilações e dificuldades. O líder, para que se mantenha relevante, precisar dominar a tecnologia e seus algoritmos mas, acima de tudo, precisa tocar o coração das pessoas. Do contrário, o “Darwinismo Tecnológico” fará sua seleção natural.

 # A coragem seria um dos principais atributos para a liderança?

No decorrer da minha longa jornada de liderança, eu não hesitaria em afirmar que a ausência desta qualificação (ou virtude) é percentualmente alta dentre os dirigentes de empresas. Fatores emocionais, por vezes ligados à rigidez paterna na infância ou a traumas antigos, são comuns na interpretação da alta incidência. É fácil observar, em reuniões de diretorias ou conselhos, a falta de posicionamento claro em assumir posturas que se contrapõem à maioria, mesmo que não concorde com essa. Agora, se aliarmos a coragem ao atributo de dizer a verdade, então avançamos demais na qualificação da liderança. O filósofo Michel Foucault tem um livro onde foram compiladas aulas e palestras de um Curso no Collège de France, na década de 1980, com o título de “A coragem da verdade”, que é extremamente atual. Lá podemos encontrar os vínculos de amarração entre a verdade da coragem e a coragem de dizer a verdade. Trata também, por consequência, do tema da vida não dissimulada. O uso da fala franca, sem disfarces, por dizer a verdade apesar dos riscos que venha a correr, é o atributo ético indispensável para o líder duradouro, quer nas análises de planejamentos empresariais ou na tribuna política.

# No sistema Unimed, observamos que sua coragem se manifesta muito através do empreendedorismo. São quantas frentes de atuação?

Somos a única federação do Brasil que tem uma logomarca que se chama Sistema Cooperativo Empresarial Unimed RS. As demais são apenas federações, que são cooperativas de segundo grau. Nós somos seis ao mesmo tempo. A federação é o órgão que capitaneia este grupo de empresas. Temos a Uniair, para transporte aeromédico e táxi aéreo; a Unicoopmed, que é uma cooperativa de primeiro grau e tem 1,2 mil sócios, oportuniza trabalho aos mesmos pela via cooperativa; o Instituto Unimed/RS, que é uma organização social que muito tem auxiliado aas comunidades do Interior do; a Unimed Central de Serviços-RS, com seus projetos tem atuação na redução de custos, prestando serviços às Unimeds; e a Casa da Memória, inaugurada há dois anos, que guarda toda a história do Sistema Unimed, coordenada por um historiador, e que periodicamente recebe realiza mostras/ exposições de artes.

# Mais alguma iniciativa inovadora no horizonte?

A Unimed precisa, e já está fazendo isso: criar empresas não cooperativas para que possa se desenvolver em outros setores – como operadoras de odontologia, laboratório, análises, fugindo da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que deixa nossa atuação engessada. Aqui no Estado, a federação acaba de criar a RS Empreendimentos S/A. Contamos com a participação de capital de todas as Unimeds gaúchas, com percentuais diferentes para que nenhuma ficasse de fora. Vai trabalhar nas mais variadas áreas de negócios.  A nova Holding vai trazer retorno de capital para os sócios, que são as Unimeds, que por sua vez são formadas por seus médicos cooperados.

# Voltemos a falar sobre seu último livro. Ele foi lançado em setembro do ano passado, meio ano após o início da pandemia. Quais seus conselhos para liderança em tempos de incerteza?

A liderança não muda com pandemia ou sem, antes ou depois, no século 18 ou 23 – isso no meu conceito. A verdadeira liderança deve estar sempre embasada nos mesmos princípios e nos mesmos valores, seja na Idade Média ou agora. Se a modernidade é líquida – conceito do filósofo polonês Zygmunt Bauman para explicar a fluidez do imprevisível, instável, incerto – a liderança é sólida. E no aparente paradoxo verbal encontra-se o caminho da verdade. Nunca, pelo menos neste século, tivemos tantos argumentos reais para valorizar a pessoa como fonte de toda a esperança. Existem milhares de livros que falam sobre liderança, considerados alguns de autoajuda. Eu tenho pavor deste termo. Não existe autoajuda partindo do outro. A pessoa mesma é que cria seus mecanismos interiores para sair de uma situação. Ninguém te ajuda a nada, a não ser pela psicanálise, que vai buscar a solução dentro de ti. Eu sou um freudiano. Claro que Freud tem muitos conceitos que hoje não são reconhecidos. Imagina este homem lá nas décadas de 1920/1930, quando não tinham exames à disposição,  e mesmo assim descobriu ego, superego, id, interpretação dos sonhos, atos falhos. Foi algo fantástico. Temos que considerá-lo naquela situação e ficar com aquilo que tem sentido. Mas voltando ao livro… Ele estava sendo encerrado em junho. Veio a pandemia e ficou parado na gráfica. Quando chegou agosto, me dei conta que teria que escrever um capítulo sobre a pandemia. Consegui encaixar como um anexo.

# No seu ponto de vista, quais foram os aprendizados deixados até agora pela pandemia?

Não estávamos preparados para uma situação como esta. Todo o foco de catástrofe, no mundo, estava voltado para a energia nuclear. As lideranças estavam focadas na Coreia do Norte. Aprendemos  que no planeta é possível que tenhamos catástrofes advindas do mundo invisível aos nossos olhos, do que da energia nuclear.  Sob o ponto de vista de administração/gestão  é possível trabalhar à distância, sendo produtivo e competente. Desenvolvemos um lado mais humanista, com maior valorização das pessoas – o que representa minha luta permanente tanto na literatura quanto na medicina e na administração. Estendemos nosso interesse e preocupação às pessoas que fazem parte do núcleo dos funcionários: pai, mãe, filhos, marido, esposa. Eles moram contigo? Como estão? Pegaram Covid? Precisam de alguma coisa? Surgiu uma rede verdadeira de solidariedade.

# Para finalizar, quais são seus próximos passos em ambos os ofícios?

No ofício literário, estou escrevendo minha oitava narrativa de ficção. É sobre um médico imigrante que, em 1921, veio da Calábria para o Brasil e se estabeleceu em Anta Gorda, no Vale do Taquari. Meus livros são complicados porque, como eu invento de fazer coisas de épocas passadas, tenho que pesquisar: como eram as estradas, carros, charretes, navios, roupas, comunicação. No romance – que é baseado em fatos reais – tem mocinho, bandido, curandeiro, padre. É o que eu posso dizer por enquanto. Os Céus de Pindorama, que foi um dos meus primeiros livros, era sobre os dez dias de descobrimento do Brasil. Eu sabia de cor a carta de Pero Vaz de Caminha, porque eu não podia cometer erros históricos, tinha que colocar o personagem de ficção sendo fiel ao contexto. E o mesmo acontece agora com esse médico. Não podia dizer que o hospital de Anta Gorda chamava-se São João, quando se chamava São Carlos. Ou dizer quer era térreo, quando na verdade era um sobrado. Por isso eu demoro para escrever. Quanto aos próximos passos no meu outro ofício, como liderança médica, é importante destacar que vamos festejar os 50 anos da Federação em junho do ano que vem. Estamos fazendo uma jornada de visitas às 27 singulares Unimeds do Estado. Já fiz isso nos 35 anos da Federação. Pretendo visitar todas novamente. Essa é a função político-institucional de um presidente. Depois a gente prepara os 75 anos (risos).

 Liderança no cinema

“Liderança Duradoura, Cinco Décadas de Vivências Reveladas” contém um capítulo escrito pelo crítico de cinema Marcos Santuário. Ele discorre sobre sugestões de filmes que abordam a temática através de seus protagonistas ou de personagens secundários. Entre eles: À procura da felicidade, O discurso do rei, Os intocáveis, Sully – o herói do rio Hudson, O jornal, O mestre dos gênios e Histórias cruzadas.

Conteúdo publicado na edição 52 da revista Gente que Faz

 



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