Todas as versões de Carolina Manica

Há duas décadas em São Paulo, a estrelense Carolina Mânica construiu uma trajetória que reúne atuação, direção, produção e locução, sem perder os laços com o Vale do Taquari

O enredo que Carolina Mânica escolheu para a própria vida exigiu coragem. Aos 24 anos, ela deixou o Rio Grande do Sul, precisou ficar longe da família, abandonou duas faculdades praticamente concluídas e recomeçou na maior cidade da América Latina. No entanto, para ela, a decisão tomada há duas décadas representou menos um salto no escuro e mais uma tentativa de seguir a paixão que descobriu ainda menina: o teatro.

Embora tenha nascido em Porto Alegre, foi em Estrela, no Vale do Taquari, que a atriz, diretora e produtora cresceu, estudou e encontrou os primeiros contatos com a arte. E é assim que faz questão de se apresentar.

“Eu nasci em Porto Alegre, mas fui direto para Estrela. Então, eu sou de Estrela. Faço questão de falar isso em toda entrevista”, afirma. Foi nos tempos de Colégio Martin Luther que surgiu o interesse pelos palcos. Integrante do grupo de teatro da escola, Carolina participava dos festivais da Rede Sinodal de Educação e levava a atividade muito a sério. “Durante toda a minha vida escolar eu fiz teatro. A gente estudava bastante, tinha bons professores e viajava para os festivais. Foi ali que eu descobri o teatro”, recorda.

Depois do período da escola, Carolina foi morar em Porto Alegre. Cursou Direito e Jornalismo simultaneamente e trabalhou como apresentadora na TVCom, que pertencia à RBS TV, além de participar de programas ligados ao universo jovem e coberturas especiais.

A televisão, porém, nunca substituiu o desejo de atuar. Em 2005, faltando um semestre para concluir os dois cursos, decidiu ir para São Paulo.

“Todo mundo me chama de louca quando conto essa história. Mas era aquela ansiedade idealista da juventude”, lembra.

Sem conhecer a cidade e contando mais com disposição do que com garantias, alugou um flat e começou uma nova etapa. Para se manter, aceitou os mais diversos trabalhos: foi pesquisadora de livros, trabalhou em atendimento de produtora, fez comerciais e encontrou na locução uma atividade que lhe daria estabilidade.

Durante duas décadas, foi a voz da Renner em campanhas e comunicações da marca, atividade que segue conciliando com os projetos artísticos.

“Eu ralei muito. Mas a locução me deu um suporte financeiro importante e até hoje é uma carreira que complementa a atuação e a direção.”

Uma artista múltipla

Ao longo dos anos, Carolina acumulou participações em produções da HBO, TNT, Multishow, Canal Brasil, SBT, TV Cultura e Globo. Mas, segundo ela, os grandes momentos de transformação da carreira vieram quando decidiu produzir os próprios projetos.

“Foi quando comecei a me autoproduzir que tudo mudou. São esses trabalhos que realmente fazem a minha carreira mudar de lugar.”

Nos últimos anos, essa independência artística se consolidou. Em 2025, foi indicada pela segunda vez ao prêmio APCA de Melhor Atriz, desta vez pelo monólogo Na Sala dos Espelhos, espetáculo que discute os impactos dos padrões de beleza e da busca pela perfeição nas redes sociais.


“Eu não acredito em jogo ganho. Para mim, é como se eu recomeçasse todos os dias. Sempre acordo às 5h50 e começo tudo de novo. A gente que é do Sul, do Vale do Taquari, tem uma relação muito forte com o trabalho”


Em 2026, estreou também como diretora teatral em O Caso Lorena, assumindo mais uma função em uma trajetória marcada pela multiplicidade. Segundo Carolina, o interesse por dirigir é resultado de anos idealizando projetos e desenvolvendo uma visão mais ampla sobre a criação.

“Eu sempre tive um olhar mais global. Dirigir era um passo que aconteceria em algum momento.”

Mesmo vivendo um período de reconhecimento, ela evita qualquer sensação de conforto.

“Eu não acredito em jogo ganho. Para mim, é como se eu recomeçasse todos os dias. Sempre acordo às 5h50 e começo tudo de novo. A gente que é do Sul, do Vale do Taquari, tem uma relação muito forte com o trabalho”, coloca Carolina, para quem a disciplina tem raízes na com o lugar de onde veio.

As origens em cena

 

Embora São Paulo seja sua casa há vinte anos, Carolina mantém os laços com a região. A mãe vive em Lajeado, grande parte da família continua no Vale do Taquari e as visitas acontecem com menos frequência do que gostaria.

Mais do que a saudade, ela acredita que o interior moldou valores que carrega até hoje. “Ter crescido em Estrela me deu um outro tempo, uma outra intimidade com as pessoas. Isso me trouxe empatia e uma noção de coletivo que eu não quero perder nunca.”

Em meio às temporadas em diferentes teatros de São Paulo, gravações e novos projetos, existe um desejo ainda não realizado: trazer seu trabalho para perto de casa.

“Tenho muita vontade de levar o monólogo (Na Casa dos Espelhos) para o Rio Grande do Sul. Tenho muita saudade de Estrela”, confidencia a artista, que construiu uma carreira nacional, mas nunca deixou suas origens saírem de cena.

Conteúdo publicado na edição 65 da revista Gente que Faz

Crédito da maioria das fotos: Otávio de Roque

 



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