Thiago Lacerda nada superficial

O Rio Grande do Sul já é um pedaço do seu chão. E a gente se orgulha disso! Porque Thiago tem conteúdo, é engajado e se posiciona. Com sua voz e presença impactantes, sai da tela e, entre nós ergue bandeiras que importam. É apaixonado pelo que faz e não mede esforços para nos entregar belas interpretações. Quando aqui está, diz sentir-se em casa!

foto Nana Moraes

A última vez que estivemos com Thiago Lacerda, foi quando ele, mesmo debilitado por uma gripe que o deixou de cama por três dias, engrandeceu o palco do Wish Serrano, revivendo lembranças e histórias de Giuseppe Garibaldi – personagem que interpretou na minissérie A Casa das Sete Mulheres – para o lançamento da obra Travessia, de Letícia Wierzchowski. Na plateia, uma unanimidade! Não deu para deixar de sentir orgulho de tê-lo, com seu conhecimento e dedicação, com sua personalidade opinativa e fundamentada, amando nosso chão. Ele veio com os filhos: Gael, Cora e Pilar, e com a também atriz Vanessa Lóes, com quem tem 16 anos de casamento.

Completando neste 2017 duas décadas de atuações na TV, no teatro e no cinema, o carioca Thiago Lacerda, que tem o hábito do chimarrão há cerca de 20 anos, seguiu a trajetória da arte de interpretar sem nunca ter traçado algo do tipo para sua vida. Isso, pelo simples fato de sua formação não ter nenhuma relação com o mundo artístico. Como ele mesmo diz: começou a fazer TV por obra da vida mesmo!

Quando jovem, Thiago cursava teatro para trabalhar questões inerentes à idade, como a timidez, e acabou recebendo um convite da escola teatral que frequentava para fazer um teste para a televisão. “A verdade é que deu certo e fiquei.”

O ator cultiva o hábito do chimarrão há cerca de 20 anos

Carreira – Sua trajetória foi construída a partir do trabalho na televisão. Porém, imediatamente, ele precisava aprender seu ofício. Procurou o teatro para isso, que lhe proporcionou as ferramentas para chegar até aqui, ou seja, 20 anos de carreira. “Primeiro veio a TV e depois o teatro e o cinema. E, em razão disso, minha carreira estruturou-se muito em cima da TV e do teatro. Mas eu amo fazer cinema e gostaria de fazer mais!” Ele é enfático ao dizer que não tem um tipo de produção que mais lhe atrai, pois acredita que atores não têm direito de fazer esta escolha. “Digo isso porque o ator é múltiplo, precisamos ser vários.”

Trabalhos e a relação com o RS – A construção de seus laços com os gaúchos iniciou antes mesmo de participar de seu primeiro filme, “A Paixão de Jacobina”, de Fábio Barreto, filmado em São Leopoldo – RS, e exibido ao público em 2002. Ele conta que essa aproximação aconteceu de forma natural, em paralelo ao desenvolvimento de sua carreira, e os personagens que foram surgindo acabaram por ter essa relação com o Estado. “Durante o processo do filme, fiz muitos amigos, e logo depois deste longa veio A Casa das Sete Mulheres, quando interpretei Giuseppe Garibaldi, e mais recentemente, O Tempo e o Vento, no qual eu era o Capitão Rodrigo.”

Em O tempo e o Vento viveu Capitão Rodrigo

Thiago ressalta que ao longo desses 16 anos, desde as filmagens de Jacobina, ele veio muito ao RS. “Tive diversos motivos para isso, tanto profissionais quanto pessoais. E desta forma, esses laços foram se estreitando, o carinho pela terra, pelas pessoas, pela tradição, e, inclusive, pela forma como eu sempre fui recebido aí, o que faz eu me sentir em casa e querer estar sempre voltando.”

O ator cultiva, por exemplo, o hábito do chimarrão há cerca de 20 anos, justamente em razão das amizades e das trocas que a vida proporciona: “Eu lembro que nas filmagens de A Casa das Sete Mulheres, eu dava aula para os atores, meus colegas, de como fazer chimarrão (risos…). Minha erva inclusive eu compro em Porto Alegre, no Mercado Público. Sempre que estou por aí vou até lá e almoço no local. É um passeio delicioso de se fazer na capital gaúcha.”

Literatura – Além da biografia de Garibaldi, que Thiago já havia lido muito antes de interpretá-lo, ele declara que gosta de boas histórias: “Sou muito ligado a biografias, pois as grandes histórias me interessam. Acabo lendo muitos romances, seja para o teatro ou para TV e cinema. Meu envolvimento com Jane Austen, por exemplo, ocorreu em razão de um personagem; assim como Dostoievski, ao qual hoje estou dedicado, em função de algumas ideias.” Ele diz que seu leque literário vai muito também, conforme o andamento de seu trabalho. “De uma certa forma, minha profissão dita minha rotina literária.”

Autores – Entre seus autores preferidos, o ator cita de cara a escritora gaúcha Letícia Wierzchowski. “Ela não é somente minha amiga pessoal, é uma de minhas autoras preferidas, pois gosto muito da maneira como escreve. Os livros da Letícia não saem da minha cabeceira, por uma relação íntima que tenho com a literatura dela, da maneira bacana que tem de contar histórias.”

Thiago também fez questão de citar como autores que aprecia: Guimarães Rosa, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Paulo Leminski. “São figuras que fazem parte da minha vida.”

 

“Ela não é somente minha amiga pessoal, é uma das minhas autoras preferidas”, afirma Thiago Lacerda em referência à escritora Letícia Wierzchowski

No momento – Thiago fez recentemente uma participação especial na série da TV Globo, Cidade Proibida, exibida no início do mês. Encerrou há pouco tempo as filmagens do longa “Um Animal Amarelo” – de Felipe Bragança, que possivelmente estará finalizado até o final de 2018.

Para o ano que vem, o ator já tem uma novela programada, para o horário das 18h, na Rede Globo. As gravações começam em janeiro próximo. Na sequência, fará um espetáculo de teatro, em São Paulo, com a trupe Club Noir, com Roberto Alvim e Juliana Galdino, dupla que Lacerda considera hoje, das mais importantes do cenário teatral do Brasil: “Fazia muito tempo que eu não ficava tão ansioso e motivado para começar uma jornada como essa de 2018.”

“Eu lembro que nas filmagens de “A Casa das Sete Mulheres” eu dava aula para os atores meus colegas de como fazer chimarrão (risos…). Minha erva inclusive eu compro em Porto Alegre, no Mercado Público. Sempre que estou por aí vou até lá, e já aproveito e almoço no local, pois acho um passeio delicioso de se fazer na capital gaúcha.”

Brasil – Thiago é muito firme ao falar do Brasil atual. Ele diz que precisamos de esperança, que o ser humano precisa de esperança, assim como é necessário cultivarmos utopias. “Por mais difícil que a coisa esteja em nosso País, cultivo minha utopia e minha esperança. Eu acredito em uma única coisa, na educação! Isso coloco em prática em minha vida e na dos meus filhos diariamente.”

Para ele, a educação é a única ferramenta transformadora que a gente tem. Em se falando de Brasil, tudo é urgente: segurança pública, saúde, mobilidade urbana, entre tantas outras coisas. Mas, frisa Thiago: a verdadeira ferramenta da transformação é a educação. “Porém, o que acontece é que essa transformação pela educação precisa de décadas para ocorrer: três, quatro, cinco gerações, mas é nisso que se tem de apostar para que nossos filhos, netos, bisnetos, precisem cada vez menos dessas urgências.”

Ele diz que a educação revolucionária como existe em outros países, traz a reboque todo o resto: cenário político, tolerância, saúde e a própria democracia. “Por isso, procuro dizer todos os dias para meus filhos que a única coisa que vale a pena é o conhecimento, o mergulho no processo do conhecimento pessoal e da educação. Não tenho nenhum problema que as pessoas discordem de mim e do que penso, porém, o que me preocupa e me assusta, é a violência e a ignorância com que as pessoas externam essa diferença. E isso também só se muda com educação.”

Queermuseu – Com relação ao polêmico episódio ocorrido em Porto Alegre, do cancelamento pelo Santander Cultural da exposição Queermuseu, na capital gaúcha, antes de ter acabado o período previsto para a mostra ser exibida (uma celeuma que posteriormente se repetiu no Rio de Janeiro) Thiago manifestou-se de forma indignada. “O cancelamento da exposição foi lamentável. Isso é um sinal dos tempos. Gravíssimo! É impossível imaginar o impacto negativo do cerceamento da liberdade de expressão e da oferta de provocação estética ao público. É de um atraso imenso, um retrocesso humano, civilizatório, pois não existe civilização sem cultura, sem educação. Não existe civilização sem arte.”

“O cancelamento da exposição foi lamentável. Isso é um sinal dos tempos. Gravíssimo! É impossível imaginar o impacto negativo do cerceamento da liberdade de expressão e da oferta de provocação estética ao público. É de um atraso imenso, um retrocesso humano, civilizatório, pois não existe civilização sem cultura, sem educação. Não existe civilização sem arte.”

Ele argumenta ainda que não interessa se a pessoa gosta ou não gosta deste ou daquele tipo de arte. “Arte não é só o que você entende, arte não é só aquilo que te toca A arte é individual, pertence ao indivíduo e não a terceiros”, afirma Thiago. “Ninguém tem o direito de determinar se uma manifestação é pertinente ou impertinente para o público, pois é com essa diferença de percepção estética individual que a civilização se constrói. Se você nega isso, nega também a evolução civilizatória de um povo. Por isso, considero a censura muito grave. A liberdade é o bem mais precioso da espécie. Ao público deve pertencer o direito de escolha, de consumir ou não consumir uma manifestação de qualquer natureza. Ao público pertence essa escolha e esse direito. Se alguém determina se algo deve ou não deve existir, o indivíduo perde o direito de escolha. É a liberdade que está em jogo. Ao mesmo tempo, é preciso cuidado e regulação. Aquela criança não deveria estar lá. Crianças não devem consumir conteúdo adulto, de acordo com as diretrizes do estatuto da criança e do adolescente. Mas discutir regulação não deve virar uma discussão sobre proibição, preconceito, medo e censura.”

Ele lamenta demais e se diz extremamente surpreso com o ocorrido. “É uma pena, tudo isso me surpreendeu muito, principalmente porque o Santander é uma instituição comprometida com a cultura. Conheço o Santander, sei que é! E também por ser em Porto Alegre, que sempre teve um cenário corajoso e de vanguarda cultural. Acredito no comprometimento da instituição. Mas, entendo a pressão feita por determinados setores da sociedade que não percebem a gravidade do momento. Foi um movimento de pressão muito bem orquestrado por gente intelectualmente e politicamente perigosa.”

 

Por Andrea da Silva Spalding

Publicado na edição 36 da revista Gente que Faz

Fotos divulgação e Nana Moraes, Rafael Martins, Jayme Monjardin e Adriano fagundes

 



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