Tem que ter borogodó



Texto | Andrea Lopes
Fotos: Divulgação

Sim, em muitas ocasiões beleza põe mesa. Mas há qualidades que vão além das aparências e podem favorecer até os menos desprovidos de uma boa estampa: o chamado capital erótico. E você, tem o seu?

Quem nunca ouviu a declaração do poetinha Vinicius de Moraes (1913-1980): “As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”? Sim, com ele não havia meio termo – a beleza feminina fazia muita diferença em qualquer circunstância. Vinicius casou-se nove vezes – nem todas eram belas, mas cada uma tinha, digamos assim, um charme especial. Provavelmente as moçoilas conquistaram o poeta com seus capitais eróticos – um jeito de ser, uma maneira de se portar, conversar, se apresentar que vai além das aparências. Óquei, “a beleza é uma forma de gênio. Até melhor que o gênio, porque não precisa de explicação”, diria o escritor Oscar Wilde (1854-1900). Contudo, devemos concordar que há aquelas pessoas que, mesmo não atendendo aos requisitos clássicos de beleza, têm um borogodó difícil de resistir. Melhor: por que não usar este algo a mais para se dar bem na vida – incluindo a área profissional?

javier bardem

Os estudiosos do ser humano e da sociedade respondem sim à questão e corroboram a afirmação de que, para além da beleza propriamente dita – e muito bem-vinda, naturalmente -, o capital erótico também põe mesa. Se para o sociólogo francês Pierre Bourdieu os capitais econômico, cultural e social são condições determinantes para o indivíduo se destacar profissional e socialmente, para a cientista social Catherine Hakim isso tudo vai além. Para a inglesa, há o poder do capital erótico, um conjunto de atributos pessoais como charme, boa aparência, estilo e carisma que podem, sim, fazer toda a diferença, por exemplo, na hora de conseguir um emprego. Tudo está descrito em seu livro “Capital Erótico – Pessoas Atraentes São Mais Bem Sucedidas”, que vem, há algum tempo, provocando polêmicas. E aí vamos combinar que a coisa fica mais democrática, já que beleza dá até para tentar alcançar com cirurgias plásticas, que nem sempre dão muito certo. Mas carisma, elegância, sedução e sex appeal podem ser encontrados em qualquer pessoa – que o digam feios clássicos, como o francês Serge Gainsbourg (1928-1991), para citar apenas um dos menos bonitos que conquistaram fãs e beldades em sua charmosa trajetória pelo planeta Terra e acabaram virando, por assim dizer, ícones do borogodó.

Para a professora da London School of Economics, o capital erótico fala mais alto porque une atrativos físicos e sociais que transforma homens e mulheres colegas agradáveis no trabalho. “Beleza e charme são commodities valiosas, que têm oferta escassa em qualquer sociedade”, escreve Catherine. “Pessoas elegantes e sedutoras conseguem convencer as pessoas com mais facilidade e hoje precisamos ter em quem acreditar.” Ser um profissional de ética e respeito é importante (“até afrodisíaco”), mas você pode acrescentar a estas qualidades um vestir-se adequadamente dependendo da ocasião, ter uma conversa agradável, não fazer aquelas piadinhas sem graça e também ser um bom ouvinte (esta última vale grifar e colocar em negrito, já que anda cada vez mais em falta no mercado). Catherine reforça o que todo mundo sabe, mas, às vezes, esquece: seduzir não tem a ver com beleza, mas com atitude, postura e personalidade, itens pessoais que você pode aprimorar ao longo do tempo. Lá vai o be-a-ba: “Fato: a beleza sempre foi um elemento central, a despeito das variações culturais e temporais em relação ao que a constitui. Um segundo elemento é a atratividade sexual, que pode ser bastante diferente da beleza clássica. Ela tem a ver com um corpo sexy. O terceiro é social, pois envolve graça, charme, capacidade de interação; a habilidade de conquistar pessoas, deixá-las felizes e à vontade, gerar interesse e, quando for apropriado, desejo. O quarto elemento é o dinamismo, um misto de boa forma física, energia social e bom humor. O quinto também é social, pois envolve o estilo de vestir, maquiagem, perfume, joias ou outros adornos, corte do cabelo e acessórios de uma forma geral. O sexto e último elemento (ufa) é a própria sexualidade: competência sexual, energia, imaginação erótica, diversão e tudo o mais que compõe um parceiro sexualmente satisfatório”.

18th July 1974: Sammy Davis Jnr (1925 - 1990), American actor and popular singer. (Photo by Michael Fresco/Evening Standard/Getty Images)

E a autora mostra sua teoria no preto e no branco, citando estudos realizados nos Estados Unidos e no Canadá sobre as vantagens nos salários pagos a pes­soas consideradas atraentes – coisa de 14% e 27% nos homens e 12% e 20% nas mulheres. “Em empregos em que o contato pessoal com clientes é comum (…), alto capital erótico oferece uma contribuição natural nos lucros e na satisfação e deveria ser recompensado apropriadamente”, garante. Vamos combinar que você já deve ter observado a importância de todos esses fatores no universo corporativo, no dia a dia, na roda de conversa no bar, no coquetel de lançamento daquela publicação.

A intenção de Catherine ao provocar a opinião pública com suas argumentações é tão somente conclamar as pessoas para se autovalorizarem e buscarem, dentro de si mesmas, o seu próprio capital erótico – e desenvolvê-lo. “Não existe gente feia. Todo mundo pode ficar mais atraente”, instiga a autora. Portanto, não se aflija se o espelho não é seu amigo. O negócio é ter borogodó. E o seu, anda desfilando por aí?

HOMENS DE BOROGODÓ

Não se angustie se você não é lá um Leonardo DiCaprio, um Reynaldo Gianecchini, um David Beckham. Veja uma relação de homens que, com seu charme próprio e característico, desafiaram os padrões de beleza em diferentes décadas e mostraram a importância de se ter borogodó.

 

SERGE GAINSBOURG

Artista francês

Dono do borogodó que abalou a música francesa nos anos 1960 e 1970. Ao lado da mulher Jane Birkin, a quem se juntou depois de anos de namoro com Brigitte Bardot, Serge compunha, cantava, atuava, dirigia e reforçava sua fama de “o mais feio dos sedutores”.

 

JAVIER BARDEM

Ator espanhol

Ele tem um rosto bruto, de traços marcantes mas que não atendem, digamos assim, ao que as pessoas costumam chamar de ‘ beleza’. Contudo, Bardem exala charme pelos poros – nem Penélope Cruz resistiu.

 

SAMMY DAVIS JR

Ator, cantor e dançarino norte-americano

Baixinho, caolho e meio estranho, ele ainda por cima andava ao lado dos amigos Frank Sinatra e Dean Martin. A despeito de toda essa situação desfavorável, Sammy Davis arrasava com a mulherada – incluindo a diva Kim Novak.

 

TARSO DE CASTRO

Jornalista brasileiro

Intelectual, boa-praça, um dos fundadores do jornal O Pasquim, Tarso “ficou” com mulheres do naipe da estrela Candice Bergen. E ainda por cima deixou de presente para as futuras gerações o filho, o ator João Vicente de Castro, outro charmoso de carteirinha.

 

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