Somos negligentes

foto interna

Senadora Ana Amélia (Foto Lisette Guerra)

A negligência tão presente no nosso comportamento cotidiano, pode explicar, em parte, a eclosão da crise do zika vírus que tanto atormenta a população. Muito do que temos visto e ouvido, nos jornais, rádios, TVs e redes sociais sobre o descontrole nos gastos públicos, a corrupção ou a excessiva burocracia, atrapalhando a economia, são consequência de nossa omissão e falta de vigilância! Não falo apenas de nossa capacidade de eleger bons governantes, mas das responsabilidades individuais diárias – em casa, no trabalho ou na escola.

Refiro-me, por exemplo, ao desalinhamento entre nosso comportamento e as atitudes necessárias à consolidação de uma cultura de civilidade. Negligenciamos em atos aparentemente simples, como o respeito às filas, aos limites de velocidade, à sinalização, ao uso racional da água ou ao cuidadoso uso de bens públicos. São muitos os exemplos de nossa negligência! É emblemático o caso do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, da chikungunya e do zika vírus,  relacionado aos mais de 700 casos de microcefalia confirmados no Brasil. Para enfrentar esse “vilão”, a pesquisadora Rose Monnerat, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), desenvolveu, em 2007, um inovador bioinseticida, coincidente à incidência de muitos casos de dengue no Distrito Federal, à época. A pesquisadora, com o apoio e envolvimento de toda a comunidade, conseguiu controlar a reprodução do mosquito na cidade satélite de São Sebastião, situada a apenas 20 quilômetros da Praça dos Três Poderes, em Brasília. Foi um bom exemplo de envolvimento sinérgico das pessoas: comunidade escolar, professores, pesquisadores, agentes de saúde, pais, líderes comunitários e autoridades. A mobilização, envolvendo a participação dinâmica de crianças, adolescentes e adultos, em atividades extra-curriculares, no ensino fundamental, médio e superior, garantiu a erradicação do mosquito, hoje motivo de enorme preocupação da sociedade brasileira. Por negligência, aquele modelo tão bem sucedido de política pública preventiva, na área de saúde, se perdeu no tempo. A negligência foi, também nesse caso, maior que a responsabilidade na continuidade daquele relevante projeto. A negligência colocou o Brasil na desconfortável situação de epidemia do zika vírus, reconhecida pela OMS. A Organização Mundial de Saúde, com o aumento dos casos de zika vírus, admitiu que a situação no Brasil é grave. O que ocorre hoje em relação ao mosquito é o visível reflexo de nossa negligência. Combater a dengue e o mosquito transmissor dessa e de outras doenças é uma obrigação de todos nós. Essa responsabilidade envolve desde a plantinha que temos em casa plantada em vaso, aparentemente inofensiva, até a piscina de uma casa abandonada, ou pneus e garrafas jogados nos entulhos,  criatórios do mosquito. Os poderes públicos e a sociedade precisam se envolver nessa guerra contra o mosquito.

A negligência compromete soluções duradouras. No final dos anos 90 e início do ano 2000, uma grave crise atingiu o setor de energia no país. Lembro do apagão energético que obrigou, de modo vigilante, em algumas regiões do país, a manter lâmpadas apagadas e evitar o desperdício de energia. Banhos foram racionados, a utilização de luzes foi controlada,  rigorosamente, e aparelhos com elevado consumo energético foram descartados dando lugar a equipamentos sustentáveis  e econômicos.  Terminado o “apagão”, continuamos   perdulários, tal qual ocorre hoje, em São Paulo, com a água. Usamos energia e água como se fossem fontes inesgotáveis. Nossa negligência prevaleceu e continuará sendo sempre uma perigosa ameaça, enquanto cada um de nós esquecer que a educação e a responsabilidade consciente são, sem dúvida, os melhores aliados à construção de uma sociedade pacífica, civilizada e comprometida com o bem público, os valores e princípios éticos e democráticos.

 

Ana Amélia Lemos

Senadora pelo Rio Grande do Sul

Pensata publicada na edição 29 da revista Gente que Faz



Tags relacionadas

Comente



Compartilhe!







POSTS RECENTES

Image

Carmen Ferrão personifica a máxima “paixão pelo que faz”

A Superintendente de uma das maiores redes do varejo nacional segue reinventando a empresa criada pelo pai, Lins Ferrão, agora com os pés fincados também na gestão online. Para ela, a maior certeza é aquela que bem do coração, da paixão  Carmen Ferrão não para. Com paixão, ela dirige, junto aos irmãos e primos, o […]

LEIA MAIS
Image

Dall’Agnol R. Júnior, uma questão de admiração

Ele é consagrado, assina projetos arrojados e inovadores, em seus mais de 25 anos de arquitetura e decoração já recebeu diversos prêmios, foi tantas vezes quanto inédito em Casa Cor – quem não lembra a Black Box, o Hammam, a Capela, o Acqua Theater e sua Dance House – só para citar o que rapidamente […]

LEIA MAIS
Image

Masculino e atemporal, em décor de Juseliane Arenhart

  O projeto da designer de interiores Juseliane Arenhart para o apartamento masculino privilegiou a integração, a sofisticação e a atemporalidade, em mostra de elegância ao quociente máximo “O lar carrega as memórias e as histórias do indivíduo, é a nossa extensão material, abriga nossa personalidade e nossos gostos mais particulares. Tudo aquilo que nos […]

LEIA MAIS