Que me perdoem minhas amigas feministas

bonequinha-de-luxo-18*F comme Femme

Elle est éclose un beau matin

Au jardin triste de mon cœur

Elle avait les yeux du destin

Ressemblait-elle à mon bonheur ?

Oh, ressemblait-elle à mon âme ?

Je l’ai cueillie, elle était femme

Femme avec un F rose, F comme fleur*

Salvatore Adamo

Que me perdoem minhas amigas muito feministas, mas para mim é inesquecível a imagem de minha avó, passeando de mãos dadas comigo pela praça Daltro Filho em Vacaria. Eu bem pequena e ela toda de preto, luto pela morte de meu avô e ver os cavalheiros lhe tirarem o chapéu…

É muito bom uma gentileza, um gesto de cuidado, flores no café da manhã, ter quem te ofereça uma cadeira, quem te abra uma porta e priorize que passes à frente, quem te estenda a mão, quem te pegue no colo, quem te estreite nos braços. É muito bom ser Bruna Lombardi para ganhar uma poesia de Mário Quintana, ser Anita Ekberg para dançar com Mastroianni na Fontana di Trevi, ser Helô Pinheiro para se eternizar como “A Garota de Ipanema” (perdão: é uma cantada musical politicamente incorreta…) por nada e ninguém menos que Vinícius de Moraes, e ainda por cima com arranjos de Tom Jobim e interpretação em inglês pelo “Old blue eyes “,  Frank Sinatra.

Ser Marilyn Monroe de vestido colante, dourado brilhando para cantar “Happy Birthday, Mr. President” ao mais lindo presidente da república que já existiu (para mim o Obama vem logo a seguir, mas ninguém resistiria ao sorriso de JFK). Ser também Jackie Kennedy para encantar Nikita Kruschow e Onassis com guerra fria, iate, ilha e tudo. Ser a jovem de negro dançando “Por una Cabeza” de Carlos Gardel com Al Pacino, ser a princesa Diana em um ensaio fotográfico e Wally Simpson, a plebeia de Baltimore, para abalar a realeza britânica e arrebatar o futuro rei da Coroa que desistiu de ser rei por ela, só por ela. Ser também a musa de Alejandro Sanz na belíssima Y si fuera Ella? Que me perdoem as feministas, mas seria uma catástrofe se Alfred Hitchcock não tivesse inventado suas louras misteriosas. Jamais teríamos a linda Grace Kely em Janela Indiscreta, nem Doris Day cantando “Que será será” carregando no sotaque yankee ou Kin Novak e suas vertigens amparadas por James Stewart. Já Picasso se inspirou em seus casos de amor, arrebatado para criar, criar e criar. Quem será que eu queria ser? Talvez Jaqueline para passear com ele pela Riviera Francesa ou Gala para quem Salvador Dali dançou vestido de Pierrot diante do olhar embasbacado de Paul Eluard, seu primeiro marido?

Perfume01E se Audrey Hepburn jamais tivesse ousado posar inebriada por um fútil colar em frente à Tiffany´s e nem usado aqueles vestidos maravilhosos negros ou rosa pink? E se os homens tão criticados, humilhados e espicaçados apenas por serem homens desistissem de o ser e não mais se encantassem com um Perfume de Mulher? E se os meninos não mais se apaixonarem pela professora do jardim de infância? Se eles resolverem “brincar de Barbie” em vez de treinar aquele assovio agudo por trás do poste estreado no momento em que a menina mais bonita da rua passar? E se o menino frente a uma menina mantiver uma expressão amorfa, fria e indiferente em vez de passar horas no banheiro aplicando gel no cabelo e a loção pós-barba do papai (que empresta e ensina como usar) mesmo sem ter ao menos um fio de barba, só para ver aquela coleguinha banguela? E se os corações masculinos tão agredidos em sua masculinidade como se esta fosse uma patologia, não mais batessem fortes diante de um sorriso cor de carmim, de um teste de HCG positivo e nem chorassem por Romeu e Julieta mortos, frustrados em seu amor, mesmo sabendo ser uma ficção do bardo Shakespeare? Que mundo seria esse se Flaubert não criasse Madame Bovary, nem Dostoievski Anna Karenina, nem Graham Greene, Fim de Caso?

La Dolce Vita

Se não soubéssemos do amor de Abelardo por Heloísa? Muito menos beleza teria o mundo se Balzac não homenageasse as mulheres de 30 anos. E o que dizer das bailarinas do Bolchoi? Perdoem-me as feministas, mas o que seria de Freud sem suas Marta e Minna Bernays, Anna O.Dora, Lou Andreas -Salomé? O que seria da arte sem que Simoneta Vespuccio tivesse encantado a Botticelli a ponto de retratá-la como Vênus, nua e perfeita aos dezenove anos saindo de uma concha? Que diríamos de Gustav Coubert sem A Invenção do Mundo, e de um mundo inventado sem Eva seduzindo e causando a expulsão de Adão do Paraíso… E se o indigenista não tivesse se apaixonado perdidamente pela indiazinha Diacui e nem Prestes pelos olhos azuis de Olga Benário?

O que seria do mundo sem uma valsa vienense sabendo que Strauss ao compor Danúbio Azul, para além do Rio Danúbio, via-se nos braços de uma mulher? Que seria de nós humanidade sem pagar o nosso preço pelas diferenças, pelas dívidas simbólicas, com nossos pais, mãe e avós. Que seria de nós mulheres se as valsas vienenses não atravessassem o oceano e jamais as tivéssemos dançado aos quatro anos com os pezinhos em cima dos pés-guia de nossos pais e nem pressentíssemos em seu olhar e pensamento a benção paterna: “que seja bela”. E se essa benção não se renovasse aos quinze, na cozinha, entre trôpegos e concentrados treinos de salto alto, para estreia, o debut? E se o ritual não culminasse de organdi rosa e voo pelo salão com um prelúdio de homem adulto (o guri nervoso e espinhento já nem tão imberbe) que repete ao pé do ouvido: “como és bela”?

01-grace-kelly-bE, claro, o que seria do mundo se no rádio da cozinha, ao fundo, não ouvíssemos a voz afinada, chorosa, de Billie Holiday divinamente interpretando “the man I Love. Someday he’ll comes along, the man I love and he’ll be so big and strong, the man I love”? E se não viajássemos na música imaginando “the man I Love” chegando no meio da noite, brilhantina no cabelo refletindo o luar da madrugada, talvez com um sorriso canastrão, talvez cheirando a tabaco cubano?

Sem falar minhas queridas amigas feministas, na centenária e magistral “cantada” Carinhoso de Pixinguinha à mulher que passa. E o ritmo do chorinho cadenciando passos femininos. Carinhoso em um solo de clarinete tocado só para ti. Lindo de arrepiar. Ah, que me perdoem as feministas, ” só assim então, seremos felizes, bem felizes…”.

*”Ela desabrochou numa bela manhã no jardim triste de meu coração. Trazia os olhos do destino, assemelhava-se à minha felicidade? Oh, ela se parecia com minha alma? Eu a colhi, ela era mulher Femme como “F”, rosa como flor”. Salvatore Adamo

VivianeProfissional-1

Por Viviane Jacques Sapiro

email viviane.jacquessapiro@gmail.com

Psicanalista da Associação Psicanálitica de Porto Alegre

Especialista em Psicologia Clínica Hospitalar

Membro do Serviço de Saúde Mental do Hospital da Criança Conceição

Publicado na edição 33 da revista Gente que Faz



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