Nei Lisboa, nosso menestrel



 

 

Ele é aclamado como um dos maiores compositores gaúchos, tem fãs cativos que o acompanham em seus shows e sabem suas músicas de ontem e de hoje de cor – e se derretem com aquele charme de quem parece que não está nem aí (é ou não é?). Mas Nei Lisboa está e sempre esteve, e muito, presente na vida dos gaúchos, dos paulistas, dos paraenses… Com seguidores aqui e acolá, Nei agora pensa em lançar um disco ao vivo com o registro dos shows de seu mais recente trabalho, “A Vida Inteira”, segue grudado na internet, já duvida se os muros afastam ou aproximam as pessoas e acredita que “a política perdeu seu matiz filosófico, idealista, que instigava tantos a fazer poesia”. Nos momentos de relax, ouve jazz e folk dos anos 70 e diverte-se com a filha, Maria Clara, 11 anos, que curte orgulhosa o som do pai,  mas desconversa sobre o assunto perto das colegas de colégio. “Com as amigas ela não paga mico, escuta R5, Ariana Grande, Demi Lovato…”, resume o pai. Mas tudo bem, afinal, Nei garante: “sentir-se feliz com o resultado de uma canção é o item mais delicado, eu mesmo ainda estou aprendendo…”

O disco mais recente que você lançou, “A Vida Inteira”, como vem sendo recebido, o que você tem ouvido das pessoas sobre ele? E como você o destaca em sua carreira, o que ele tem de especial ou de característico que teus outros trabalhos não?

Tem sido bem recebido e muito importante pra mim, acho que nem é só um disco, é um processo… Tipo pensar, o que vem depois de uma Vida Inteira? 🙂  Parte do repertório do disco amadureceu bastante na estrada, antes de gravar. Mas outra parte não, e agora vai pegando uma cor diferente ao vivo. Acho que ainda vou mostrar isso num próximo trabalho, uma versão ao vivo dessas músicas.

Tuas músicas sempre tiveram um conteúdo político bem forte. Tem a história do teu irmão, da ditadura… Como você vem acompanhando os últimos acontecimentos na política nacional – as manifestações de 2013, eleições e eleitos, a Petrobras…?

Que momento, hein? É uma passada a limpo e tanto, desde a Comissão da Verdade até a Lava-Jato e tudo o mais. E o saldo das eleições, se a gente filtrar a baixaria, é também o de um envolvimento intenso da população no processo, que deve ser contabilizado como positivo. Claro que se pode olhar com ceticismo também, quando alguns se recusam aceitar ou clamam pela volta da ditadura. Mas arrisco dizer que isso vai sumir rapidinho e não deixar nenhuma consequência funesta.

 Vemos, de um tempo para cá – acho que a última onda foi nos anos 80 –, que questões políticas não inspiram tanto a música popular brasileira. Você percebe isso também ou não? Por quê?

A política perdeu seu matiz filosófico, idealista, que instigava tantos a fazer poesia. As multidões que têm saído às ruas são pragmáticas, escaldadas do autoritarismo ou da incompetência da política partidária associada ao capital. Querem pra já o seu saneamento básico, seu transporte e seu Iphone 6. Os tempos de hoje não têm mais tempo. O que Chico Buarque consagrou como um mote de resistência e esperança, “Amanhã vai ser outro dia”, hoje seria dito num tom de desencanto, algo como “Amanhã vai ser outro dia, que não me interessa. Quero saber é do que vamos conseguir hoje!”.

Há pouco comemoramos os 25 anos da derrubada do muro de Berlim. Que outros muros – talvez não tão concretos como este – você percebe hoje na sociedade, entre as pessoas, no dia a dia…?

O problema com derrubar muros é ouvir as brigas, as opiniões homofóbicas e as dispensáveis intimidades dos vizinhos. A comunicação virtual, as redes sociais da internet, são as grandes protagonistas do momento nas relações interpessoais. Resta saber se de fato aproximam ou distanciam ainda mais as pessoas.

Quem é teu público hoje, quem vai aos teus shows?

Adultos, ao redor de trinta e quarenta anos, na maioria. Também gente da minha geração, e muitas vezes seus filhos adolescentes.

Tu acompanhas o que está acontecendo na música hoje, de novo? Ainda tem aquele negócio de músicos te mandarem coisas para ouvir, gente te mostrar escritos, para saber a tua opinião? A internet facilitou isso?

Sim, acompanho, ainda que não seja o mais atento dos ouvintes. Uso a internet para divulgação e circulação do trabalho, e nesse sentido ela ajudou muito, mas não para uma relação online com o público, que seria inviável.

A internet facilitou outras situações, em relação à música? E dificultou?

Como é regra na cultura digital, tudo que envolve o registro, o trabalho repetitivo e a circulação ficou facilitado. Não acho que tenha propriamente dificultado alguma coisa. A tendência é, muitas vezes, que o meio digital seja visto como um fim criativo, mas acho que isso vai sendo superado aos poucos no rumo de um equilíbrio entre as facilidades práticas digitais e o potencial criativo humano, analógico, que é insuperável.

Sempre teve aquela questão de ficares em Porto Alegre… Mas ao mesmo tempo isso não te impediu de ter um público fora e agora, com a internet, creio que esse tipo de questão fique mais obsoleto ainda. Ou não?

É verdade, essa questão de morar aqui ou acolá perdeu um pouco do seu sentido e do seu charme.

Volta e meia tu fazes algumas turnês pelo país. Como você é recebido nesses lugares, em lugares como Belém, por exemplo, que público te recebe por lá?

Belém, propriamente, é um caso à parte. Voltei lá nesse agosto último, e foi uma verdadeira maravilha. Também estive no Festival de Garanhuns, ano passado, foi muito legal. E mais aqui pra baixo, Curitiba, Florianópolis, sempre tem um bom público.

E tua carreira de escritor, como anda? Escritos na gaveta, vontade de lançar livro, algo programado?

Não, até para um blog eu ando resistente, escrevo muito de vez em quando. Lidar com as letras de música, que não saem fáceis, está me bastando…

O que tu escutas em casa?

Tenho ouvido um pouco de jazz, Ella Fitzgerald, Melody Gardot. Ou folk dos anos 70, Joni Mitchell, Laura Nyro. Leonard Cohen, às vezes. Dave Matthews. Mumford and Sons.

E que mais tu fazes da vida? Quando tem um tempo de relax (tem?), tu costumas sair, ir ao cinema, ou fica em casa, com a filhota?

Cinema, passeios no parque, uma bicicletada até o gasômetro ou o Iberê. Uma pequena viagem, quando dá. No dia a dia, alguma série na TV enquanto ela não desgruda do youtube…

Como é a relação com a tua filha, e dela com a música? Ela curte te ouvir, demonstra alguma relação mais próxima com a música?

Ela curte os shows do pai, vai com prazer e bem orgulhosa. Mas em casa e com as amigas não paga esse mico, aí ela escuta R5, Ariana Grande, Demi Lovato etc.  Fez umas aulas de bateria e de piano, é muito musical, mas não sei se vai encarar um estudo mais intenso. No momento, a grande paixão dela é o ballet.

Tu te lembras a primeira vez que a música te chamou a atenção, que tu te deu contade que iria trabalhar com música na vida? Por que você resolveu ser cantor e compositor?

Em casa se cantava muito, e aqueles festivais históricos, dos anos 60, me deram uma dimensão do poder mobilizador da música popular, da importância que uma canção, uma letra, uma palavra podem ter no contexto social. Mas a decisão mesmo de me aplicar num estudo, e de fazer disso uma profissão, só veio na adolescência.

E como ocorre a composição? Como nasce uma canção? Como é que funciona isso, hein?! Risos.

Funciona assim:

1) Pegue um violão, uma flauta, um apito ou caixa de fósforo.

2) Comece a tocar ou bater vigorosamente.

3) Cante ou grite a primeira coisa que lhe vier à cabeça.

4) Sinta-se feliz com o resultado.

Esse último item é o mais delicado, eu mesmo ainda estou aprendendo… 🙂

Por Andréa Lopes

Publicado na edição 23 da revista Gente que Faz

Fotos divulgação

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