Heloísa Crocco: arte com alma, liberdade e poesia



 

Sucesso e reconhecimento pelo trabalho que realiza com enorme prazer e alma. Esse é o resultado de uma menina inquieta e dispersiva que acabou por se envolver com a arte desde os sete anos de idade. Heloísa Crocco é artista plástica e designer com talento nato para trabalhar com madeira. Com 65 anos, segue criando belas peças, envolvendo-se com a criação de coleções a partir de sua pesquisa Topomorfose, que inclusive foi lançada em um livro de mesmo nome, e com projetos de cunho social como o Programa do Artesanato Brasileiro

A inquietude de seu comportamento levou sua mãe a procurar uma forma de conduzir essa característica de sua personalidade, e à época a orientação foi Heloísa ocupar-se muito com as mãos. A partir daí sua mãe colocou-a no Centro de Desenvolvimento e Expressão, que ficava embaixo do Theatro São Pedro, em Porto Alegre. “Lá, quem orientava a mim e aos outros alunos era Ado Malagoli, Vasco Prado, entre outros. Trabalhávamos com xilogravura, argila, pintura, e também assistíamos a peças de teatro. Nessa época, eu tinha sete anos.”

Cursou o ensino técnico de arte aplicada, fez seu estágio de fim de curso a artista alemã Elisabeth Rosenfeld, que introduziu o fazer têxtil com a lã no setor artesanal gramadense, e frequentou Belas Artes.

E, então, sua arte virou trabalho

Ao voltar para Porto Alegre, ela começou efetivamente a trabalhar com arte têxtil, que estava em alta em todo país. “Participei de grandes exposições, principalmente em São Paulo, onde expus diversas vezes. Mas, veio então a crise para a arte têxtil e nós artistas estávamos tentando resgatar o que ainda sobrava. Iniciei uma fase de questionamentos, estava com 30 anos, tive meu primeiro filho, Vicente. Dois anos depois veio o segundo, Thomaz. Foi um tempo em que me dediquei bastante para eles”. Porém, em seguida, com os filhos já maiores, foi fazer uma especialização cujo foco era pensar o fazer. “Foi muito interessante, passei a ler filosofia e a entender o que queria”, afirma.

Na floresta Amazônica, uma nova fase pra arte

“Nesse período de questionamentos, me encontrei com o amigo e arquiteto Zanini Caldas, hoje já falecido, que me disse que crise existencial se cura na floresta.” Ele estava indo para a Floresta Amazônica – fazia casas na Joatinga (praia no Rio de Janeiro) com todos os materiais de demolição que sobravam na Floresta Amazônica – e convidou Heloísa para ir junto. Ela foi e ficou duas semanas na floresta, onde catava sementes, casca de árvores e galhos, achando que podia se expressar com isso.

Quando voltou, o material custou para chegar e quando finalmente estava em suas mãos, percebeu que não era nada daquilo que ela queria. Mas, o que interessou à artista foram os anéis de crescimento das árvores. Assim, começou uma pesquisa voltada a isso.  “Fiquei dois anos fazendo jogos de possibilidades com o grafismo que a natureza oferece, sendo tudo só em termos de pesquisa durante todo aquele período.”

Topomorfose vira realidade

Com a pesquisa pronta, montou um projeto e conseguiu um patrocinador, lançando o livro de mesmo nome Topomorfose, que hoje é um patrimônio de sua empresa, Crocco Studio Design. Decidiu conhecer a Europa e foi visitar alguns estúdios, entrando num que foi fundamental. O de uma inglesa, já falecida, que se chamava Laura Ashley, que pesquisava flores na Inglaterra. “Olhei muito para tudo, entrei num espaço que tinha papéis de parede, cheiros de flores, e me dei conta que eu tinha a pesquisa pronta. Era só voltar para o Brasil e aplicar.”

Assim que voltou iniciou o trabalho de aplicar aqueles carimbos em superfícies de papelaria, tecidos, guarda-chuvas, sacolas, entre outros. “Procurei algumas lojas para colocar os produtos, mas não queria vendê-los em separado, queria vender o conceito todo que vinha por trás de cada objeto.” Conseguiu o que desejava. Colocou um corner na então Personal Paper, no Shopping Praia de Belas, o que foi um sucesso.

Também foi, então, um passo para a moda e tecidos. Com o acervo enorme de matrizes que tem, a partir delas desenvolve alguma outra distorção ou outro desenho, ampliando e misturando, o que lhe propicia fazer diferentes coleções a cada período. Na moda, por exemplo, desenvolveu, com uma confecção mineira chamada Auá, uma linha com as impressões da Topomorfose.

Heloísa também produziu um trabalho usando esse método de ideia matricial com desdobramento no artesanato. “Fiz e teve muito sucesso. Comecei em Ouro Preto, com a pedra sabão.”

O atelier, seu espaço no mundo

 “A madeira é meu atrativo e minha forma de expressão, me interessam suas texturas, sua história por meio dos anéis de crescimento.” Heloísa utiliza madeira de demolição; reflorestada; e ainda madeira típica das cercas do pampa gaúcho. Ela já trabalhou muito também com as aparas das cercas que são exportadas para os EUA.

Onde desenvolve sua arte, na Zona Sul da capital gaúcha, também fica sua casa, onde seus dois filhos, que são seus sócios, também trabalham. “O Vicente, que está com um laboratório gastronômico, e o Thomaz, centrado na área do design movimento, com surf e videomaker. E tudo foi construído com madeira reflorestada.”

No atelier, a artista envolve-se com três vertentes: o design, que compreende as coleções; os painéis, que são o carro-chefe; e os projetos paralelos de revitalização de artesanato brasileiro, no Programa Brasileiro do Artesanato, em que desenvolve seu método. “Neste projeto, eu levo uma equipe por todo o Brasil para dentro de uma comunidade, e desenvolvo uma coleção.”

“Seria um presente fazer arte até morrer”

“O reconhecimento não entrou por de baixo da minha porta, são anos e anos de trabalho, muito trabalho mesmo”, enfatiza Heloísa. “Minha atividade é uma extensão de meu cotidiano, é prazeroso. Considero uma bênção esse trabalho ter chegado para mim, ainda por cima ganho com ele. Quer melhor do que isso!” Ela diz talvez ao longo dos anos comece apenas a reduzir os formatos de seus painéis, produzindo versões menores, que podem, juntas, formar uma grande peça. “Seria um presente fazer arte até morrer.”

Nada convencional

“Enquanto as pessoas gostam de olhar para um lado, sempre preferi olhar para o outro. Gosto de viver com muita liberdade, gosto de pouco, mas gosto de coisas boas”, diz ela. “Aprecio viver de maneira simples, por isso o que é dela é básico. Gosto de sofisticação, é claro, mas nada que me aprisione, por isso acho que o mundo deve ser repensado.”

A arte para Heloísa

A arte de Heloísa é objetiva, minimalista, com cores vivas e combinações harmônicas. Ela diz que seu trabalho é a extensão de como ela é, objetiva. Ela evidencia que não se pode fazer algo que não seja uma extensão da gente, pelo simples fato de que aí a coisa não teria alma. “Arte para mim é o que resulta da coragem de criar com liberdade e poesia… parafraseando o poeta Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta.”

Para a confecção dos painéis e murais, a artista terceiriza o que chama de produção, o corte da madeira, sendo toda parte de pintura, combinação de cores e montagem feitas por ela. Suas obras são comercializadas para arquitetos, no próprio atelier; e ainda em galerias, em Porto Alegre, São Paulo e Minas Gerais

Para a confecção dos painéis e murais, a artista terceiriza o que chama de produção, o corte da madeira, sendo toda parte de pintura, combinação de cores e montagem feitas por ela. Suas obras são comercializadas para arquitetos, no próprio atelier; e ainda em galerias, em Porto Alegre, São Paulo e Minas Gerais.

 

Por Andréa da Silva Spalding

Fotos: Tiago Trindade

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