Eva Sopher: sabedoria



 

 Ela pega o já tradicional molho de chaves e segue para o Memorial do Theatro São Pedro. Eva Sopher sente-se à vontade lá, cercada de fotos dos amigos queridos de diversas gerações que já se apresentaram no palco do teatro e de dedicatórias amorosas de mitos da cultura nacional como a atriz Dina Sfat, os atores Paulo José, Paulo Gracindo e Raul Cortez, de músicos como Tom Jobim, e do marido, Wolf Klaus Sopher. “O problema de se fazer 90 anos é perder o abraço dos que já se foram”, afirma ela, que troca ideias com Fernanda Montenegro ao telefone seguidamente e admira a amiga Nathalia Timberg em plena forma na novela das oito. Depois de reconstruir e colocar o Theatro São Pedro entre as maiores casas de espetáculos do país, Eva Sopher luta para finalizar o Multipalco, espaço cultural construído ao lado do centenário prédio, em pleno centro de Porto Alegre. “O Multipalco é uma loucura que todos só vão entender quando estiver funcionando”, profetiza. A alemã de Frankfurt que virou gaúcha segue ensinando gerações a estarem atentas e fortes, sem perder o que mais importa na vida – uma amizade sincera.

 Para quem ainda reluta em prestar atenção ou entender, dona Eva, o que é o Multipalco?

O Multipalco é uma loucura que todo mundo só vai entender depois de ver ele funcionando. Porto Alegre terá algo absolutamente inédito no mundo. Eu desafio as pessoas a me darem um exemplo de uma casa de cultura centenária que seja vizinha de um espaço cultural tão moderno, incluindo um galpão crioulo típico da cultura regional. Tudo isso no mesmo chão. Na Alemanha, por exemplo, tivemos grandes espaços destruídos pela guerra que foram reconstruídos, como reconstruídos foram as igrejas e outros espaços de terras arrasadas pela guerra. Mas ter um edifício assim, secular, convivendo no mesmo terreno com um espaço absolutamente contemporâneo, só no Multipalco. Só no centro da Capital dos gaúchos.

Por que os empresários ainda não se sensibilizaram com a questão do Multipalco?

Quando eu refiz o teatro, havia muitas portas para a gente bater. Havia orgulho, vontade de participar de algo grandioso que estava sendo reconstruído, a vontade de participar para depois dizer para os netos ‘olha, o vô ajudou a colocar estes tijolos aqui’. Isso infelizmente não existe mais. Não existem mais portas nas quais bater. Se eu procuro um empresário hoje, a resposta é ‘e quanto me volta disso?’. Antes eu recebia não ou sim. Hoje não recebo mais nada.

 

A senhora está falando das Leis de Incentivo à Cultura. A senhora quer dizer que essas leis atrapalham a produção cultural no Brasil?

As Leis de Incentivo acabaram com a cultura no Brasil. Mas também falta tradição e a vontade de continuar tendo a tradição. Isso é do mundo contemporâneo. Eu estava conversando com Fernanda Montenegro e comentamos que abraçar uma pessoa da minha geração é algo muito significativo, porque são gente de outra época. Eu tenho meus netos, os amo e admiro, mas eles são de uma nova era que está surgindo. É complicado fazer comparações, aliás, não há mais possibilidade de fazermos comparações. Estamos vivendo uma mudança de época.

 

Mas a senhora vê essa transformação em outros lugares no mundo?

O mundo todo está em processo de mudança, mas ainda vejo algumas iniciativas interessantes. Por exemplo, na Alemanha, pelos políticos, não teríamos essa dificuldade de dar andamento às coisas culturais, até porque lá, uma casa como o Theatro São Pedro seria assumida pelo governo. Porque a pessoa aqui não está fazendo isso para si, mas por pura teimosia. Lá isso seria compreendido como algo normal. E olha que aqui eu estou terminando de passar pelo décimo governo… Experiência não me falta com governantes.

 “O problema de comemorar 90 anos é perder o abraço dos amigos que já se foram.”

E desses governantes todos pelos quais a senhora passou – ou que passaram pela senhora – quais os que mais lhe marcaram?

Ontem à noite, tivemos um concerto da nossa orquestra de câmara aqui. Quem estava na plateia? Olívio Dutra e a esposa. Nos últimos 10 anos, o único governador que vinha antes, veio durante e segue vindo depois do governo é o Olívio. Por outro lado, Germano Rigotto eu chamava de garoto propaganda. Às vezes ele procurava empresários e os chamava a ajudar o teatro. No governo dele estava marcada a inauguração do Multipalco, mas aí criaram um novo conselho de cultura e tudo travou. E maior confiança do que o atual governador (Tarso Genro) tem em mim nunca vi. Dia desses ele fez uma visita ao Multipalco e foi perguntado por uma jornalista se ele ia ajudar a Dona Eva. Ele respondeu ‘a Dona Eva não precisa de ajuda, ela se vira’.

A senhora já foi acusada de popularizar o Theatro São Pedro com apresentações de artistas com mais abrangência de público, como se estivesse maculando um templo. Como a senhora recebe esse tipo de comentário?

Eu digo que 99 % das pessoas que vieram ao teatro para ver o Guri de Uruguaiana nunca tinham pisado aqui. Para mim é de um valor imenso. Essas pessoas não pechincharam, não pediram desconto, não pediram ingresso cortesia. Vieram para ver um artista que admiram e pagaram do próprio bolso. Alguns ligaram para cá dias antes para ver como deveriam se vestir. Uma bobagem, claro, quando me viram com meu tênis no pé, relaxaram. Esse meu trabalho, inclusive, acho que sai desta casa. Por que o Theatro São Pedro nunca foi pichado? Por que as pessoas o respeitam. O respeito contagia.

A sua paixão por cultura, quando nasceu?

Quando eu nasci, acho. Lembro de assistir à Flauta Mágica, com oito anos, e me recordo de tudo. Acredito que nós todos nascemos com um dom. Se fazemos o que fazemos com prazer é porque nascemos com a vontade de fazer aquele trabalho.  A cultura sempre me acompanhou. Vim para o Brasil com 13 anos, para São Paulo. Mudei para o Rio em 1943 e lá conheci meu marido, em 1945. Em março de 1946 estava casada. Nesse tempo todo estudei cultura e me liguei ao grupo Pró Arte. Cheguei em Porto Alegre em 1960, encontrei um amigo músico de São Paulo e o chamei para jantar em casa. Aí já fiz a pergunta, ‘como é a cultura em Porto Alegre?’. E ele respondeu ‘é bom você arregaçar as mangas e começar a trabalhar já’. Foi o que fiz. Reativei o Pró Arte aqui e não parei mais.

Sua convivência com artistas e nas coxias devem lhe render ótimas histórias. Alguma especial para contar?

Esse tipo de história ocorre mais com as pessoas em volta do que com os próprios artistas. São tantas que é difícil lembrar… Vendo agora Beatriz Segall ali, naquela foto na parede, lembro de um dia em que ela me ligou para tratar de algumas coisas da temporada que faria em seguida aqui no teatro. Foi no mesmo dia em que acabaria a novela Vale Tudo, em que ela fazia Odete Roitman. Eu em casa, tratando com Beatriz Segall sobre sua temporada, e meus netos, na época uns guris – hoje eles são pais dos meus bisnetos – me cercaram no telefone pedindo para eu perguntar para Beatriz quem tinha matado Odete Roitman. Quer dizer, as histórias quem faz são os outros! Mas olha ali, aquele maravilhoso Baden Powell… Nunca esquecerei o momento do show em que ele parou, olhou para cima e disse ‘que astral maravilhoso que tem essa casa’. Aí eu vejo Paulo Autran, de quem só perdi duas apresentações aqui… Esses muros respiram o que de melhor há de arte e cultura há 155 anos. Foram construídos por 12 cidadãos que doaram seus réis para que fosse erguido em Porto Alegre um teatro à altura da cidade.

Com todos esses desafios durante esse tempo todo que a senhora está à frente do Theatro São Pedro, o que a fez não desistir?

Justamente o desafio. No começo, a cada semana eu devolvia meu cargo ao governador Sinval Guazelli. Mas eu sabia que, se não fizesse, o teatro seria destruído. Depois de tudo isso, eu digo para os meus colegas que um dia me tornarei o Fantasma da Ópera e aí ai de quem não cuidar disso aqui (risos).

E o apoio que seu marido, Wolfgang Klaus Sopher, lhe dava?

Fundamental. É uma saudade que sinto. Um dia Isaac Karabtchevsky veio conhecer o Memorial e me disse que sentia falta de uma foto: a do meu marido. Então coloquei aquela foto ali, depois de consultar minha família e meus colegas. E Isaac tinha razão mesmo (fala com os olhos cheios d’água). Wolfgang me dizia que se eu não pegasse o Theatro São Pedro acabariam com ele.

Um sonho a realizar?

O sonho já está realizado. Porque se você é expulsa da casa dos seus pais, como fomos eu e minha família na época da guerra na Alemanha, e um vizinho te abre as portas, como fizeram os brasileiros e o Brasil, você só pode ser grata pelo resto da vida.

Um espetáculo ou artista que ainda sonha trazer ao São Pedro?

Queria de volta Paulo Autran no palco. E Paulo Gracindo. A queridíssima Carmen Silva, que completou seus 90 anos aqui… Semana passada estava comentando com Fernanda Montenegro a importância dos abraços em gente da nossa geração, essa cumplicidade. Mafalda Verissimo me faz muita falta, éramos irmãs gêmeas. O problema de completar 90 anos é perder o abraço dos amigos que já se foram.

Publicado na edição 17 da revista Gente que Faz

Texto Andrea Lopes|Fotos Tiago Trindade

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