Cronômetro do prazer



Por Adriano Mazzarino

O tempo é expresso na sociedade como a soma de segundos, minutos e horas. Ou dias, semanas, meses e anos. Seu símbolo é o relógio ou o calendário. Ontem eram a ampulheta ou o sol ou a lua. Hoje é um cronômetro. Um comercial de TV tem 60 segundos. Um spot de rádio não deve ultrapassar os 30. Uma consulta no psicanalista se efetiva em 45 minutos. A diferença de tempo entre o primeiro e o quinto colocado numa prova de Fórmula 1 é de décimos de segundos. Esse é o nosso tempo. Tais conceitos afetam a tudo e a todos. Mas serão esses os conceitos na prostituição? Um programa dura quanto tempo? Uma hora ou uma noite? O que determina o prazo do início ou o fim do atendimento? Ou como uma prostituta mede o tempo de trabalho?

Para responder a essas perguntas, visitamos uma das principais boates de Porto Alegre, a Gruta Azul. A casa noturna atende de segundas a sábados, envolvendo de 100 a 200 mulheres em dias e horários diversificados.

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Conversamos com quatro mulheres de diferentes idades e experiências. Vanessa, Samira, Horrana e Natascha são nomes fictícios que elas inventaram para trabalhar e manter-se no anonimato, uma das regras do setor.
O quarteto de mulheres e as outras dezenas e até centenas de colegas que passam pelo Gruta Azul possuem como relógio o interfone, um sistema de telefone interno. O equipamento conecta o apartamento com a área privada localizada no setor de recepção da boate. A partir do instante em que o cliente e a garota combinam o programa e entram no quarto, não existe relógio. Ou melhor, o relógio é um cronômetro comandado por uma terceira pessoa que acompanha e controla o atendimento. Quando completam-se 60 minutos, o interfone toca, e o usuário é questionado se pretende renovar o programa ou não. Esse é o medidor, a régua que estabelece o conceito de prazer na indústria do sexo. São 60 minutos ou 3.600 segundos que o contratante possui para ser atendido nos seus desejos sexuais. E para a contratada, a prostituta, o que significa esse período de tempo?

Tempo é dinheiro
Natascha, 24 anos, define o tempo sem saber: “Às vezes demora para tocar o interfone, e eu me pergunto: será que esqueceram de mim?”. Morena de cabelos longos e lisos, corpo escultural e nádegas salientes, está há dois meses na noite. Foi casada por seis anos e, por sugestão de um taxista, foi trabalhar na boate, pois precisava ajudar na sobrevivência do avô, que desconhece sua atividade. Seu faturamento começou com R$ 1 mil reais e hoje está em R$ 5 mil por mês. Mesmo novata, ela conceitua que tempo é dinheiro, quando assim argumenta: “Quanto mais eu ficar enrolando, mais o cliente perde dinheiro, se eu estiver tomando banho, já estou enrolando”. Natascha, ex-estudante do Ensino Médio, pretende ficar uns dois anos na atividade, tempo que ela julga o suficiente para comprar uma casa, um carro e uma loja de roupas. O exercício da prostituição faz com que ela minta sempre, única forma de disfarçar sua atividade perante os familiares e amigos. Mas, em outro momento da entrevista, comenta que se sentiu bem na nova atividade, de onde concluímos que dela vai demorar para sair.

Tempo é uma caixinha de surpresas
Para Vanessa, 20 anos, trabalhar com o interfone é uma caixinha de surpresas. Ela já teve casos de ficar conversando com o cliente e ele dobrar o programa. E destaca: “O controle do tempo está no interfone, mas se não é ele, eu não me toco do tempo”. Corpo magro, cabelos cacheados castanhos médios e pouca maquiagem no rosto fazem de Vanessa uma mulher que disfarça sua maioridade. Ela começou na prostituição em dezembro, após participar do filme Sexo total, produzido pela Brasileirinhas (maior empresa de filmes adultos do país) e dirigido por Don Pycone, um dos nomes de destaque da cinematografia pornô. Ela namorava há três anos e rompeu. Agora está com novo namorado (amigo de infância), caso iniciado há dois dias antes da entrevista. Ele sabe da atividade da namorada e aceita. Vanessa, ex-aluna do curso médio, destaca que sua atividade é uma interpretação: “Me concentro e dou o máximo de mim!”. E ensina: “Dou atenção! Se ele disser que a esposa é uma chata, eu concordo”.

A pressa é do cliente
Para samira, 32 anos, muitas vezes a pressa é do cliente. Samira parece ser do tipo segura. Alta, magra, cabelos negros e longos, possui diversas tatuagens no corpo. Os desenhos na pele podem ser observados, pois ela usa biquíni cavado azul. Uma forte maquiagem destaca os olhos. Foi casada durante quatro anos, numa capital do centro do país. Vivia bem, mas o rompimento fez ela voltar à prostituição, que antes exercia para o sustento dos filhos. Além da prostituição, ela trabalha como comissária de bordo em uma empresa aérea. Voltou a casar recentemente, com uma mulher, e passou a morar no litoral gaúcho. Por ser lésbica, uma boa parte de seus programas acaba envolvendo sexo a três: o cliente, ela e uma colega. A atividade de comissária lhe permite disfarçar e justificar um conforto pessoal que ultrapassa os R$ 15 mil por mês.
Para justificar que a pressa é do cliente, ela afirma: “Converso bastante, não me estresso, as coisas fluem bem”. Cliente, que é a matéria fundamental de seu tempo, ela divide em três tipos. Os primeiros são os meninos que chegam mais para beber. Os segundos são os casados, que precisam chegar antes da 23h em casa. E os mais velhos, acima de 50 anos, que bebem e as esposas sabem de seus giros na vida noturna. Mas salienta: “Quando eles são chatos, sou chata também”.

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Tempo aqui é uma ilusão
Horrana, 29 anos, tem cabelos longos e negros, que combinam com os olhos. Seios e coxas fartas, parece ser do tipo objetiva. São nove anos de vida noturna. Ela é casada há cinco anos e tem uma filha. Seu esposo sabe de sua profissão e também trabalha na noite. Dentro de dois anos, ela deve concluir o curso de Direito em uma grande universidade da capital, por onde circula com seu carro importado.
Direta, Horrana afirma que o melhor cliente é o que goza logo, e salienta: “Têm os programas que parecem durar uma eternidade”. Mas observa que o controle do relógio, durante o programa, não auxilia em nada, até atrapalha, pois gera ansiedade e o cliente percebe. Sua experiência permite orientar que a prostituta tem que seduzir, oferecer o serviço, dar qualidade e agradar. Se isso acontecer o cliente volta. “É um serviço prestado, mas, como dou confiança, em alguns casos fico amiga.”
Descreve Horrana que na vida noturna o tempo passa rápido. Os convites são muitos. A lei da gravidade chega. A concorrência é grande. O tempo, portanto, é uma ilusão. Cada vez mais você vai dando valor ao dinheiro e assim selecionando, fazendo de cada cliente um caso, onde a garota de programa é uma psicóloga.
Pontifica Horrana: “Sempre vai haver o fetiche com a garota de programa. Ela existe para dar prazer ao homem”. E sem perceber descreve a linha do tempo da humanidade. Em outras palavras Horrana resgata duas reflexões. A primeira é o velho ditado popular, que impõe a prostituição como a mais antiga das profissões. Ou seja, a prostituição é anterior ao relógio. E a segunda é uma frase do artista plástico Andy Wharol, que disse: “A fonte dos problemas das pessoas são as suas fantasias. Se você não tivesse fantasias não teria problemas, porque você aceitaria qualquer coisa que estivesse na sua frente. Mas aí você não teria romance, porque romance é encontrar a sua fantasia em pessoas que não são a sua fantasia”.

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